Saturday, July 06, 2013

Shame

  _ Cena de Shame - Direção Steve McQueen  - Michael Fassbender e Carey Mulligan _



Respira fundo. Respira e entra no filme... Li algumas críticas. A sinopse nem ao menos toca no assunto _ incesto. Ninguém afirma, alguns dizem que existe uma insinuação de incesto e que o filme é sobre um cara viciado em sexo que não consegue ter uma namorada (no caso, uma colega de trabalho) e só faz sexo com prostitutas. Para mim soou mais nítido. Da primeira à última cena as reações dele à tudo que envolve sua irmã traz aquela sutil presença do amor homem / mulher. O silêncio, o desejo de não ouvir o que ela diz. E cena a cena ele vai revelando o que está em um lugar oculto, muito oculto. A interpretação dos dois atores é magnífica. Em alguns momentos do filme dá a impressão que algo já aconteceu entre eles. E que este momento criou aquela densidade e aquela tensão quando os irmãos se encontram. São conjecturas. O filme é sensacional por tocar em temas tão delicados e conseguir atravessar sem resvalar em nada pequeno. É sempre aquela tensão interior. Ele não diz a ninguém. Ele nem revela ao seu chefe que ele é o cara que baixa aqueles vídeos, ele não assume quando o chefe diz _ algum estagiário mexeu no teu computador... Os dois estão perdidos, isto é nítido. E não conseguem amparar-se por estarem a um milímetro do território proibido. E ver Shame no silêncio de uma tarde, com o sol agressivo depois de tantos dias cinzentos, dói mais. 
Prêmios são mesmo uma lástima. Em qualquer área. Não ter uma indicação ao Oscar, ao menos uma, mostra como é politicamente correta esta droga de Academia de Cinema. E daí se o assunto é incesto, e daí se o cara é viciado em sexo, e daí se ele anda nu metade do filme, se aquela menina linda consegue aparecer qual sua personagem, frágil, de cabelos descoloridos, pálida, a ponto de demorar um tempo para que eu percebesse que o filme era com ela.
Sim, eu sou desligada. Li sobre o filme e pensei em ir em busca dele. Mas, esqueci. Do nada, na casa da minha filha decido procurar filmes neste tal Netflix e encontro o filme que invadiu a tarde de sexta-feira com um balde de água de beleza. Que bom saber que ainda fazem filmes como este. Que bom que existem diretores que não entram na linha politicamente correta, e ousam. Eles ficam sem os prêmios, e a Arte fica com a Beleza. E o que importa mais?
Premiam à exaustão filmes que falam de terrorismo. Isto sim é obsceno. A vida em si, o que somos nós como pessoas, as nuances da alma que a gente não compreende. Estas armadilhas na qual alguns caem e ficam sem saída. Tudo isto é humano. E não devia ofender mais que as guerras.
O filme não quer traçar nenhum caminho, provar nada, dar resposta. Mesmo o enredo. Não existem lições. E esta parte da vida é a mais rica. Para mim que não suporto mais tantas lições e tantas coisas tão redondinhas quadradinhas encaixadinhas buriladinhas. Para mim foi uma espécie de redenção...
Ponto para esta atriz que segue com uma surpreendente coragem. Para ela cai bem estes papéis de mulheres que são amadas mas não ficam com seus amores. Foi assim em _ Never Let me Go _ quando ela contracenou com Andrew Garfield. Foi também em _ Drive _ com Ryan Gosling, outro filme impactante, sem retoques, realidade crua lavada em humanidade. Foi em An Educacion que apresentou Carey ao mundo. Acho que ela tem um olhar de quem perdeu o amor. Tem lá dentro aquela tristeza embotada, uma mágoa que brilha, como se ela cobrasse do mundo o que lhe é devido. Ainda que não consiga. Ela cobra, encerra a dor na alma e depois dá aquele sorriso quase infantil. É uma estrela sem medo. Que escolhe estes papéis longe de estereótipos.
Este filme é de 2011. Eu sou aquela que vai narrando o que vê. E não ser crítica de cinema dá esta liberdade, não preciso estar em dia com a programação, apenas com tudo aquilo que lê e vê o meu coração.