Monday, June 16, 2014

Profanando Pessoa

A cada tempo de férias ou trégua que a vida proporciona, apego-me a um autor amado. Não como quem lê um livro entre os afazeres da vida. É uma espécie de comunhão. Foi assim em um julho frio com a leitura da vida de Camille Claudel, que engendrou "Para Camille, com uma flor de pedra". Um verão com Borges, ou mais de um ano dançando ao redor de alguma poeta contundente que faz nascer poesia e me ata para sempre em uma cúmplice troca imaginada de vida e sangue. Foi com Emily Dickinson, com Sylvia Plath... Há mais de dois anos passei um tempo com Fernando Pessoa, passei muitos dias mergulhada em seus heterônimos. Isto gerou um pensamento estranho. Quando Pessoa morreu, com ele morreu uma infinidade... Todo o infinito mundo de seus heterônimos. Senti em mim uma perda ampliada ao pensar nisto. E só então percebi a multiplicidade belíssima. Naqueles devaneios entre leitura e divagação, pensei em dar voz aos que perderam os múltiplos de Pessoa. E escrevi sonetos. Eu que raramente escrevo sonetos escrevi e foi uma seleção destinada a dizer adeus aos que morreram com ele, a morte física, no caso. O que restou foi eternidade, talvez por isto o verso que coloquei para abrir estes sonetos e contos escritos pós-diálogo com a obra de Fernando Pessoa fala disto: Do fim do futuro.


"Um dia,

lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."
Fernando Pessoa 


Em uma pequena homenagem, vou publicar o que escrevi, puro ato de criação, imaginando-me na pele de Lídia, Cloe e Neera. Apenas o soneto onde Neera despede-se de Ricardo Reis foi publicado no Jornal Rascunho. As duas outras musas de Ricardo Reis falaram de forma extensa, prolixa, em contos onde elas falam da perda. Do fim do futuro dele. Esta pequena loucura que é a Literatura, que permite que a realidade mude de lugar. Este conto é pura invenção. Nele, Lídia despede-se de Ricardo Reis. Nesta semana publicarei os textos das duas outras musas... 




    Foto - Mário Freitas


Lidia



Tão cedo apagou sua luz.
A fonte cessou de jorrar palavras.
O silêncio dele era o que eu mais amava.
E nunca ficamos em silêncio a não ser na hora do amor.
O silêncio era a hora do corpo.
Longe da cama, quando ele era alma, era uma interrogação incessante.
Quantas perguntas ele tinha ao universo?
Quantas vezes eu vi seu olhar perdido em um ponto?
No silêncio da cidade, quando os lampiões apagavam.
Nenhuma luz além da lua.
Nenhuma voz além do canto das estrelas.
Ele vinha sorrateiro pela calçada.
Pisando leve para não acordar ninguém pelas casas.
E um assobio fino ele emitia, para que ninguém reconhecesse sua voz.
Esgueirava-se pelas paredes até chegar à minha porta.
Porta de viúva solitária.
Porta que jamais se fecharia para o doutor que chega, vindo de um exílio, com o coração ardendo e com o corpo incendiado.
Dizia-me da vida e da sua fome de infinito.



Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
        Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
        Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
        Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
        E que eu a viva.

E a fome dele se estendia nas noites cálidas.
Alguém já amou?
Com corpo alma e cérebro?
Com tudo que temos em todas as fronteiras do ser?
Alguém já amou inteiro, sem reservas, sem pudores?
Ah! Quem assim amou sabe o poder dos amantes.
Ricardo era um menino gênio.
Carente de amor e de atenção.
Gostava de aparecer diante do mundo ao lado das gazelas fogosas.
Vestia sua impecável roupa e estendia o braço para uma moça clara de cabelos de fogo e saia como um deus.
Vi algumas vezes e virei o rosto.
Quis apagar aquela imagem para não macular nosso leito.
Se perguntarem qual o mais perfeito casamento eu direi que é aquele que se consuma na cama.
Ninguém é casado plenamente e vive um amor de plenitude, se na hora em que os corpos se tocam o estranhamento deita ao lado.
Nada em Ricardo me era estranho.
Nenhuma curva de seu corpo, nenhum odor.
Nada nele me atingia.
Tudo era perfeição.
No final, quando brilhavam seus olhos mais que a estrela matutina, eu sabia que seu silêncio dizia daquela mesma sensação.
Os seus mais secretos medos ele me confessava.
De mim ele sabia pouco.
Do meu ofício de bordar, que era um hobby.
O meu casamento que findou com a morte do capitão de uma fragata.
E a pensão vitalícia que eu recebia, permitia viver nesta alegria, fazer aquilo que se gosta.
Nenhuma benção é maior que esta – Fazer o que se gosta.
Gostava de bordar as toalhas finas.
Gostava de ir separando os fios de ouro para adornar a gola de uma camisinha de pagão que ia embalar o sono de uma criança venturosa.
Passava minha vida entre os tecidos finos, agulhas, fios.
Mesmo assim, nunca consegui juntar o quebra-cabeça que era aquele homem. Costurar os segredos dele até montar um mosaico.
Aquela força masculina que chegou a uma tarde, quando o vento insistiu em arrancar de minha cabeça o chapéu.
Quando meu salto alto não permitiu uma corrida rápida para resgatá-lo e vi chegar aquele homem alto, debruçar-se com elegância até o chão e me sorrir acenando com o meu chapéu.
Então eu me tornei – Lidia, a confidente.
A conduzi-lo por uma Lisboa que já não era tão igual a que ele deixara para viver no Brasil.
Ainda tinha resquícios de sol tropical em sua face.
Ainda sorria todos os dentes quando chegou com a alma salpicada de uma centena de almas felizes.
Dizia de um povo feliz, de um lugar de sol e luz.
Nada que pudesse impedir seu regresso.
Beijar Lisboa e viver aqui.
Uma tarde, quando eu tinha uma encomenda, ele seguiu sem mim.
Um pequeno barco a remo e foi remar no Tejo.
Dizem que desapareceu no Horizonte, sem explicação.
No meu coração as poesias que ele atirava ao vento na primavera mais feliz da minha vida.
Para sempre aquela certeza de que ele poderia retornar, com a roupa molhada e o corpo ardendo.
O mesmo corpo ardente que me levou ao céu...

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.               


Conhecendo Ricardo, conheci o fingimento dos poetas.
Sua aura platônica era disfarce.
Por amar os deuses ele construía mitos.
Ele – o próprio mito.
O homem não combinava com suas palavras.
Nada nele era tão alienado e nem tão elevado.
Não era nihilista.
Não contemplava o mundo e aproveitava o dia.
Ele ardia o dia, inquiria o mundo, ansiava viver gota a gota, e vivia.
Tudo que da alma jorrava caia pelo corpo, e o corpo seu era todo amor e desejo de vida. Desejo que toquei e alimentei.
No entanto, a palavra é o Poder.
E assim ele ficou para eternidade.
Com esta personalidade adulterada.
Não me importo.
Conheci o potencial do homem inteiro.
E bebo suas palavras mentalmente, enquanto bordo.
Não estava preparada para aquele Outono.
O outono que o levou de mim, para sempre.


Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
        Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo actual que as folhas vivem
        E as torna diferentes.



 Bárbara Lia - do livro inédito - Contos Portugueses