Sunday, June 22, 2014

Respirar - Bárbara Lia



Nesta primavera, para comemorar os dez anos da minha primeira publicação em livro, o livro "Respirar" chega como o décimo livro e o sétimo livro de Poesia. Ele abre com três poemas que citam - Leonardo Da Vinci - como homenagem ao primeiro livro "O sorriso de Leonardo" e traz 50 poemas escritos - em sua maioria - entre 2011 e agora, incluindo os sonetos pessoanos e a série "Musas de Acetileno". No dia 15 de dezembro de 2004, dia do aniversário do poeta Marcos Prado, nasceu meu primeiro livro. Dez primaveras depois "Respirar" terá edição minha. Se continuar em busca de editor vai acabar o ano. Alguns editores querem inéditos. Um livro inédito, sim eu tenho. Mas, provavelmente não será lançado agora. Outro editor nem responde se aceitam originais... Outro diz que primeiro preciso "trabalhar" - Paraísos de Pedra - não sei como dizer que não sei "trabalhar" um livro, só sei escrever livros. Quero um editor que publique meu livro sem custos. Com custos, eu encaro minha produção. Isto, ao que parece, diminui o valor da obra no Mercado. Sei lá. Dane-se o Mercado. Não sou a pessoa que sai em busca de críticas, prêmios e aprovações. Em 2003 eu "testei" minha Poesia, e depois disto eu compreendi algo: Não são amigos que definem quem é bom autor. É quem lê, o que não te conhece e opina pela obra e não pelo autor. Se aos estranhos teu verso não abala, então, repense. Eu lecionava em um bairro classe média, para todas as turmas do segundo ano do Ensino Médio. Lecionava História. Para que não quebrasse o ritmo, preparava a mesma aula para todos e queria manter assim. A turma "A" só tinha ninja. E sempre sobrava tempo durante as aulas, alguns minutos em que eles tinham executado todas as tarefas. Era realmente uma surpresa para um colégio da rede pública. Um dia comentei com o menino Andrew da primeira carteira diante de mim, que ficava revirando meus livros e cadernos, que eu escrevia poesia. Ele se voltou para turma e disse: - A professora escreve poesia. Pediram para que eu lesse. Eu li. No dia seguinte idem, e no outro e no outro. Passei meses abrindo a aula de História com uma Poesia. Li poemas de outros poetas atuais. Não sabia o quanto eles amavam ouvir poesia, até que um aluno já reprovado foi transferido do turno da tarde para aquela turma da manhã, que era a turma dos melhores alunos. Para justificar suas notas horríveis ele argumentou que ia reprovar, pois a professora de História lia poesia em plena aula. Na verdade não havia como ele recuperar suas notas. Era um aluno reprovado e complicado. Fui chamada pela direção e disseram para que eu ficasse com o programa de História. Nada de Poesia. Não queria colocar a culpa na direção e não quis falar sobre isto em sala, então, quando cortei bruscamente os poemas, a classe calou, murchou feito uma flor sem água, passei mais de uma semana com olhares atravessados e cobranças a fuzilar-me. Aquilo mostrou o quanto eles gostavam dos meus poemas, e de poesia em si. Antes de encerrar o ano letivo, chutei o balde, entrei na sala e disse que ia voltar a ler poesia, e tivemos mais algumas aulas com nosso rito. Era final de 2003, e decidi procurar um editor local para tentar uma publicação... Foi assim, foi este o teste. Foi para meninos de 15 ou 16 anos que eu li os poemas antes de publicar. Há alguns anos eu era cobrada pelo poeta Carlos Barros que insistia que eu tirasse os poemas da gaveta. E eu tirei. Na verdade eu nunca pensei na Poesia como meu caminho fatal. Aos doze anos eu sonhava publicar romances, aqueles livros que fazem as pessoas viajar sem sair do lugar. Sempre quis ser escritora. Tarde comecei com as publicações, mas, foi meteórico. Se olhar tudo que aconteceu nestes dez anos... Mas, naquele final de 2003, encorajada pelos meninos e meninas do 2° A, eu só não queria morrer sem lançar um livro. E sou grata sempre pelas nossas manhãs tão líricas, que deram coragem para que eu - saísse da gaveta - e publicasse. No ritmo médio de um livro por ano nasce "Respirar". 
Agora é escolher a capa e marcar a data - Primavera de 2014, em um dia qualquer, respiraremos.