Friday, January 27, 2017

A eternidade da eternidade, um prefácio para o livro A Barca de Rá - Isabel Furini

(Prefácio que escrevi para o livro - A Barca de Rá - Poemas da Travessia dos Personagens Mortos pelo Portais das 12 Hora - Isabel Furini)

link para leitura do livro: clicar aqui neste link para ler A  Barca de Rá





O sonho do homem é permanecer. Para isto gera filhos, planta árvores, realiza projetos e busca, de várias maneiras, imprimir seu nome no mundo de forma pétrea. Algo que nada lave, apague, queime, desintegre. Algumas edificações atravessam Milênios. As civilizações imprimem conhecimentos que gerações futuras replicam. Em cada nome que se perpetua um feito de galhardia, de ciência, de conquista. Alguns também se perpetuam por iniquidades, como Jack o estripador, do qual nem sabemos o real nome. Sabemos que existiu e foi feroz. O escritor é o que se eterniza por traz de máscaras, com muitos nomes, a caminhar por muitas cidades e a sentir de várias formas o rio da vida em suas veias. O escritor é o que cria uma realidade metafísica que migra para o papel como fato e tudo isto acaba por ser eternizado mais que o criador. O mistério da Arte imprime esta flor de fogo nas entrelinhas e permite que um mortal comum, por vezes calado e tímido, se torne eterno. Nem sempre o autor é afeito a arroubos como quem ele cria. Ficam os enredos a guiar corações em êxtase, que leva a um momento inacreditável, onde a respiração se faz opressa e, dentro de nós esta incredibilidade: como alguém conseguiu escrever algo tão lindo! O texto que inicia esta apresentação é minha forma de dizer que, para alguns, os personagens dos livros são tão sagrados que acabam confundidos com as coisas do dia, da vida e não são colocados como algo apartado da vida materializada. O escritor é o mago que consegue derrubar uma fina parede entre os mundos. Para os leitores estes personagens são tão reais como o vizinho que nos chateia com os barulhos na madrugada, ou a mulher que nos saúda no supermercado. 
O livro A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12 HORAS adentra um universo fictício para plasmar um mundo onde personagens de livros se encontram em uma barca em uma travessia rumo ao mundo dos mortos. É possível que este mundo antigo te engula e entres em uma espiral de mitos e símbolos. É uma viagem sonora, lavada em imagens, onde a angústia, o êxtase e o medo te tocam e tudo conclama a pensar nesta possibilidade, de que nossos maiores ícones da Literatura acabem por morrer nas veias de um tempo (presente) onde a vida se resume a likes na rede social, a encontros cibernéticos lavados em puro ego, palavra que evaporam ao acabar de ser proferida. Estas coisas deste tempo – líquido - segundo Baumann. Fica esta angústia de que consigam roubar a eternidade da Eternidade, de tudo que o mundo calcificou em matéria de Arte impressa nos livros. No instante seguinte, um pensamento consolador a garantir que desde que o mundo é mundo, os leitores se perpetuaram à margem dos modismos, convenções, etc. E o pensamento consolador dilui no ar uma barca plasmada, onde personagens atravessam portais para a morte. O livro traz uma narrativa lírica, com direito ao coro, à moda do Teatro grego, o que traz uma aura de gravidade aos acontecimentos. A autora dá voz aos personagens canônicos e atira uma chuva de interrogações sobre a gênese de um livro, sobre o papel do autor: esta eterna dúvida se é ele que imprime força aos personagens, ou são os personagens que se impõem advindos deste espaço misterioso chamado – criação. Nesta barca, a autora veste a pele dos personagens em discursos vários: Dom Quixote fala de lutas e Úrsula de Cem Anos de Solidão, espanta-se por ser ficção dentro da ficção. As fala das inúmeras personalidades ecoam em uma barca impossível, plasmada para debater o mistério da criação e da criatura no universo da Literatura. A eternidade - ou não - dos que habitam este universo paralelo do imaginário. Resta ao coro deixar no ar a pergunta:

"e se os humanos
fossemos apenas
personagens exilados
de um livro virtual
construído no passado?"


Bárbara Lia é poeta e romancista.