Wednesday, February 22, 2017

Como costurar água - Bárbara Lia








O amor costurou sua boca 
O amor  atou suas mãos
O amor cegou os seus olhos
O amor neutralizou os aromas
O amor tornou insípido o céu
O amor deitou-a na relva
E a inoculou com o silêncio
Em  uma noite rasa no Ocidente
Pós-longas noites desorientadas
Ela soube, enfim:

Para dizer de amar

Toda palavra é nonsense









O Amor é uma explosão sinistra



Nunca fui de ninguém
O mundo me entedia
A pergunta antiga
A febre do homem:
— Viver pra quê?
Nunca vi inteiro
Os que me amaram
Seus corpos
Dobrados sobre mim
Sufocava-me
Não desacreditei do amor
Simplesmente
Nunca o vivi plenamente
Isto o deixa vivo
Como um amanhecer
Virgem e apocalíptico
Esperando para romper
Em uma explosão
Sinistra







Como costurar água
Bárbara Lia

(livro em construção)

imagem - Helen Levitt