Monday, July 17, 2017

Maryam Mirzakhani


A liturgia da louça.

O momento ficou imantado por uma aura sagrada. Aquilo que detestas transmuda com o barulho cadenciado de uma torneira mal aberta que te embala com um som de água arrancada, que sai à revelia e canta como era o canto dos escravos, algo melódico e triste. E você lembra Maryam Mirzakhani a moça bonita que morreu de câncer aos quarenta, depois de arrebatar a Medalha Fields - o prêmio maior da matemática. E seus olhos marejaram diante daquele rosto que esconde o futuro, aquele olhar de quem sabe. Já não importa se a tarefa é sempre fardo, ela vira uma liturgia. 
Câncer nos seios é esta chaga que acossa pessoas que amo, e a dor de ver a feminina flor aritmética partir. Rasgo em tiras minha rebeldia e me ponho a amar o cotidiano simples e penso naquelas estratégias adolescentes, de promessas e trocas e pedidos. Opto por amar o que antes me irritava, sem pedir nada em troca, como um tributo a quem não pode mais ouvir o som da água na pia pela manhã, a dança dos pratos entre seus dedos, a espuma de detergente, o roçar dos lábios do filho que sai para a rotina enquanto o céu azul pálido lá fora lambe a vidraça. 
Vou criar uma menina linda neste livro que teço, ela será Maryam e terá estes cabelos curtos e estes olhos grandes de quem enxerga equações nas estrelas. Adeus Maryam... E ao te dar adeus abro uma página onde diz que você queria ser escritora quando era menina... E isto me aproxima um pouco da tua mente que dançou entre dois momentos, nossa mente matemática, e isto me dá a certeza de que vou mesmo criar uma menina-você como homenagem, fique em paz e obrigada.