Saturday, August 13, 2005

memórias


Cai a tarde tristonha e serena
Em macio e suave langor
Despertando no meu coração
A saudade do primeiro amor

Ouvi esta música durante a semana inteira, era uma das muitas canções de seresta que meu pai cantava. Em pleno inferno astral, com TPM e os olhos inchados vou passar mais um ano destes doze anos sem poder estar perto do meu pai. Queria que nosso amor tivesse sido como era aquele que eu vivi com minha mãe, pois era tão simples e tão intenso e foi tão consumado naquilo que se chama entrega de ambas as partes, que a saudade dela não remexe as areias profundas do mar. Ontem, talvez a data não tenha sido bem escolhida, eu comecei a escrever a primeira página de uma história que vai contar a vida de meu pai, e bastou escrever uma única página para chorar uma noite inteira, e completar esta semana regada com a sua visita, pois ele só me visita com poemas e canções e foram os versos desta música que se chama Ave Maria e foi escrita por Erothides Campos, que eu ouvi a semana inteira. Talvez eu seja a única que contenha a memória viva de meu pai e que possa contar a sua história, e não devo mais perder tempo pois mesmo os jovens morrem, mesmo as crianças e não sei se terei tempo de narrar os setenta e sete anos de vida de alguém que viveu no sertão em meio aos índios, lutou ao lado dos integralistas, foi um camisa verde, e quis lutar na Itália e foi barrado pois os médicos deram a ele seis meses de vida... Então, barbudo e derrotado, ele foi tomar sorvete com a sobrinha no pequeno povoado e deu de cara com minha mãe e a paixão foi fulminante. Ele não morreu, como se o amor lhe concedesse o bônus de estar com ela, ele morreu dois anos depois dela e morreu de saudade. Foi a única pessoa que conheci que morreu de amor.
Ontem eu decidi escrever sobre esta pessoa que viveu cantando, lendo poesia e os filósofos, e que nunca deixou de me dar uma resposta. É claro que ele dizia que Neruda não era bom poeta, só por que Neruda era comunista, mas, se hoje ele estivesse aqui eu diria que um dos versos que mais gravei foi de Neruda pois ainda estou procurando um lugar que fica entre a sombra e a alma, e é lá que eu amo alguém, neste sábado de sol, com uma certeza de sinos de cristal e amplitude de astros.


Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores, e
graças a teu amor vive escuro em meu corpo o
apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

A única herança que meu pai deixou foram palavras. A primeira lembrança dele é me embalando em uma rede branca e cantando versos de Castro Alves – Teus olhos são negros negros como as noites sem luar – são ardentes são profundos como o negrume do mar. Ele media terras e tinha um teodolito, em noites claras armava o teodolito no quintal e nos mostrava as crateras da lua. À noite me contava lendas gregas e lendas indígenas e me ensinou a utilizar o ábaco e a ver as constelações e a acreditar que a liberdade é o bem mais precioso. Controvertido apoiou o regime militar, magoou minha alma de menina com a versão oficial e isto plantou em mim o desejo de escrever sobre aqueles que viveram na clandestinidade e ele chamava de terroristas...
Frei Betto liberou minha angústia de ser tão à esquerda e amar um pai integralista, ele sugeriu que eu não usasse meu sobrenome, então eu não sou dele quando escrevo sobre as minhas idéias, eu sou apenas eu, livre como ele me ensinou a ser, sou apenas Bárbara Lia, e graças a Frei Betto até meu nome se tornou poesia. Ontem eu pensei que devo ir primeiro aquele lugar onde ele nasceu – Tibagi. Ver o rio onde ele nadou, e visitar o canyon Guartelá, e mesmo que demore a minha vida inteira, devo recuperar os passos, o desmesurado amor que o deixou vivo, e lembrá-lo chamando mamãe de minha velha, mesmo quando ela tinha quarenta, ela sempre era – minha velha – E às vezes me parece que ela nem teve noção do quanto foi amada. Sinto falta de acordar nas manhãs e ouvir aquela pergunta sempre que eu me sentava à mesa:
- Bom dia! Teve sonhos coloridos ou em preto e branco?
*
- imagem: partitura da Ave Maria de Bach