Friday, October 28, 2005

réquiem




RÉQUIEM
(Bárbara Lia)

Acreditava que eram assinalados.
Asas invisíveis.
Halos transparentes de translúcida luz.
A espada – lapiseira grafite número cinco.
Em muros escreviam de formar arcaica,
Redondas letras apinhadas em versos.
Filósofos, deuses, anjos perdidos.
Caminhavam em calçadas íngremes.
Coração em sorrateiras nuvens.
Extraviada do passado,
Seguia os poetas.
Prevendo-os anjos.
Prevendo-os deuses.
Não reconheci a porção humana.
De carne e mágoa.
Nem a aura triste
Do século das hecatombes.
Cada paixão – pedra.
Decepções empilhadas – um túmulo.
A lápide – um manual de sepultar o coração.
Meu livro seria sal
Se narrasse as mágoas
Punhais no peito
Cravados por anjos.
De olhos cinzas,
Verdes e negros.
“color de té”, como diria Neruda.
“color de adiós”
Já não cantava
As violetas na tarde,
Rubros amanheceres.
A aproximação de Marte.
Riso-sol de meninos.
Despida de sonhos e sandálias
Cruzei vales, desertos e pontes.
Ancorei na praia
Com areia de mármore.
Tarde cinza.
Mar!
Certeza azul:
O poeta é mar!
Reflexo dos céus.
Inconstante.
Não sabe se vai ou fica
E violenta a areia
Em eternas ondas.
Esconde sua beleza
Em um verde colérico.
Em maremotos.
Extensão serena ou triste.
Plácido ou rancoroso.
A música e a ardência de sal
Tudo esconde...
Abismos de luz.
Algas e pérolas.
Diante do sol e sal.
Abracei cada amante antigo,
Suas almas-abismos-de-cores.
E sepultei, na areia, as dores.
Abri asas – fênix.
Todo poeta-mar
Necessita de uma ave
Que deslize suas asas em riste
E o toque com ternura de espumas.
A canção ecoa, ruge, alça nuvens.
Alcança a alada poeta
Em liberdade no azul sereno.
Assim nascem os poemas
Na abstração
Na ausência
Na doçura de asas roçando espumas.
O poeta-mar inquieto
Ninguém domina
Mas, sua alma sonha
Mulheres aladas
Soltas na correnteza
Do vento,
Flanando livres
Entre as nuvens