Monday, May 01, 2006

jamil snege







Na primavera do ano dois mil eu estava no burburinho da Rua XV, meio ao tumulto de um ano eleitoral. Parei para falar com alguém e quando olhei à direita, eu o vi. Recebi aquele momento como um presente. Mesmo que ele tenha morrido sem saber do meu olhar cheio de reverência. Ele estava saindo da Livraria Ghignone. De camisa azul clara social e calça jeans. Magro, com um cigarro na mão, com um charme fatal, displicente. Ele esperou um senhor que saiu da Livraria logo após, e seguiram pela Rua XV, conversando. Eu lembro de ter pensado, enquanto guardava aquele instante carinhosamente dentro da minha alma:
- Lá vai o Escritor!





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trecho da crônica A Arte de Tocar Piano de Borracha:



A historinha retrata com alguma maldade a nossa velha Curitiba de guerra. Um piano de borracha à sombra dos pinheirais. Se você quiser tocar, pode. Mas não vá exigir que alguém escute. Ninguém viu, ninguém ouviu e quem ouviu fingiu que não viu... que estranha surdez é essa que congela a sensibilidade da nossa velhinha de 300 e tantos anos? Vocês conhecem outra, de igual porte e mesma faixa etária, que se comporta assim... Temos de conviver com a dissimulada vovó de ouvidos moucos, um cobertor sobre os joelhos, a dormitar ao lado de um fogão a lenha apagado. Vovó-ogre, inofensiva apenas na aparência. O grande Octavio Paz, que jamais veio a Curitiba, parece tê-la pressentido quando encerra assim um de seus poemas. 'Falo sobre a cidade, pastora de séculos, mãe que nos engendra e nos devora, nos inventa e nos esquece.'
- Como tornar-se invisível em Curitiba (Criaredições)
JAMIL SNEGE


Jamil Snege morreu em maio de 2.003.



Recortado da revista Caros Amigos - Leo Gilson Ribeiro escreveu (é mais ou menos esta a palavra que traduz uma leitura de contos de Jamil Snege)
"...o curitibano Jamil Snege, que li perante uma platéia de duzentos e tantos alunos e alunas em Diadema, cidade-dormitório em torno a São Paulo. Lembro-me que uma grande parte dos estudantes universitários ficou siderada com os contos de Jamil Snege."
Publicou crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta do Povo.
Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994)
Os Verões da Grande Leitoa Branca (contos, 2000)
lançados pela Travessa dos Editores, entre outras publicações.
Publicitário, um dos maiores em marketing político do País.