Wednesday, July 05, 2006

kafka e milena










































.- Milena -


'Escrever cartas significa desnudar-se diante dos fantasmas, que esperam isso ávidamente. Os beijos por escrito não chegam a seu destino. Bebem-nos pelo caminho os fantasmas'
'Ninguém canta com tanta pureza como os que estão no mais profundo inferno; seu canto é o que acreditamos o canto dos anjos'
'...É tão formoso ter recebido sua carta, tenho que lhe responder, embora esteja enjoado de insônia. Não sei o que lhe escrever, apenas passeio entre as linhas à luz de seus olhos, sob o alento de sua boca como em um formoso dia feliz, que continua sendo formoso, e feliz apesar da cabeça enferma, e de que segunda-feira tenho que partir para Munique.'
'Sou o cúmulo da estupidez. Leio um livro sobre o Tibet; ao chegar à descrição de um povoado nas montanhas da fronteira aperta-me de súbito o coração, tão desolada e abandonada me parece a aldeia, tão afastada de Viena. Mas o que me parece estúpido é a idéia de que Tibet fica distante de Viena. Ficaria realmente distante?'
'... Muitas vêzes tenho a impressão de que estivéssemos em uma sala com duas portas opostas, e cada qual tivesse segura a maçaneta de uma porta, e mal um de nós move as pálpebras já está o outro atrás de sua porta, e agora basta que o primeiro diga uma única palavra para que o outro feche sua porta atrás de si e desapareça. Voltará a abrir a porta, certamente, já que talvez seja uma sala que não se pode abandonar. Se pelo menos o primeiro não se parecesse tão exatamente ao segundo, se permanecesse quieto, se pelo menos aparentasse não olhar para o segundo, se se dedicasse a por lentamente em ordem o quarto, como se fosse um quarto como todos os outros; mas, em troca faz exatamente o mesmo que o outro junto a sua porta, às vezes encontram-se ambos cada um atrás de sua porta, e a formosa sala fica vazia.'
'... Estamos jogando um jogo infantil, eu me arrasto pela sombra, de uma árvore à outra, estamos em pleno caminho, você me chama, aponta-me os perigos, quer dar-me ânimo, desespera-se por ver meu passo vacilante, recorda-me (a mim!) a seriedade do jogo... não posso, desfaleço, já caí. Não posso ouvir ao mesmo tempo as vozes terríveis de meu interior e a sua, mas em troca posso ouvir apenas a sua e confiar em você, em você, como em ninguém mais no mundo."
Seu, F


Franz Kafka assinava todas as cartas para Milena, como - Seu, F -
Sou aquela que muda a cada dia, mudo o nome do blog a cada dia.
Entro em férias e deixo Franz Kafka em meu lugar por alguns dias...
Encontrei este livro na Biblioteca do Colégio onde dou aulas, uma raridade em uma biblioteca de um colégio de periferia. Uma vez eu li aquela frase onde os fantasmas bebem os beijos das cartas antes que cheguem ao destino... Arrepiada de fantasmas embriagados de beijos, eu ficava pensando neste nome - Milena - quem foi Milena na vida do Monumental Kafka - O cara cujo livro todo mundo sabe o início...
George Samsa - o personagem da Metamorfose.
Cartas a Milena, são as cartas de Kafka a uma jovem senhora, casada, que se torna sua amante.
Estou aqui esperando beber as páginas, e os beijos de Kafka e Milena pelo caminho, estou aqui lendo um livro sonhado, e ler um livro sonhado é alguma coisa como um adendo ao dia da bonança... Milena Jesenská nunca teve coragem de deixar o marido por Franz Kafka, e morreu confinada entre prostitutas e criminosas de Hamburgo no campo de concentração de Ravensbrück, vinte anos após a morte de Kafka, em 1.944, um mês antes da vitoriosa invasão das forças aliadas. Uma história de amor proibido - Franz & Milena.