Monday, August 07, 2006

stuart angel






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Stuart Angel

Quando Stuart Angel entrou para a luta armada eu vivia no paraíso - um quintal com árvores frondosas e balanço, o poço, o casarão negro da avó e poemas atirados dia e noite, lambendo paredes. Do amor, eu sei que ele é profundo, pois meu pai recitava Gonçalves Dias - enfim eu te vejo, enfim eu posso, curvado a teus pés dizer-te, que não cessei de querer-te, pesar do quanto sofri... Havia a ira de Castro Alves, havia um índia bela que assistia a tudo e nos cobria de amor, uma Iracema de ternura, que preferia as novelas do rádio aos recitais de sua sogra e de seu marido - minha mãe. Havia o irmão que me ensinou a ser goleira e a lama em que a gente se atirava, pois era vital salvar o gol, pular enquanto o sol nos cobria de vermelho morrendo, sem eu saber que morriam muitos sóis de esperança, na pele de meninos guerreiros, que acreditaram um dia, com toda fé que existe, que poderiam mudar o mundo... e havia uma varanda onde a cadeira de balanço rangia e acordava as estrelas. Havia uma biblioteca onde eu me escondia e lia, lia, lia, enquanto ia me embriagando com o cheiro de canela, esperando os bolinhos de chuva, a primavera da minha vida.
Meu pai comemorou o assassinato de Marighela - Um comunista a menos! Ele disse. Não havia razão para que eu gravasse tão nitidamente estas palavras quando ele ouvia a notícia, naquele rádio Semp que ficava acima de nossas cabeças, onde minha mãe ouvia a Ave-Maria, deixando sempre ao lado um copo de água, e uma fé que até hoje não entendo. Meu pai dizia que eles eram terroristas. Eu não sabia que os "terroristas" seriam meus irmãos de sonhos, não sabia que um dia o Frei Vermelho, seria meu amigo.
Stuart Angel teve a a morte mais sórdida de todas as mortes sórdidas do tempo da ditadura. Zuzu Angel foi a única que nunca desistiu de punir os assassinos. Nenhum regime de governo deve dar aos governantes o direito de passar por cima dos Direitos Humanos, Zuzu sabia disto. Por muito tempo acreditei em alguma tolice que li em um desses jornais ou revistas tipo Veja... que Stuart não era um militante, que foi preso por que sua mulher Sonia era do Partido Comunista. Via nele um mártir, e não um guerreiro. Por muito tempo eu tive uma imagem distorcida de Tuti, como Zuzu o chamava. Por muito tempo eu não conseguia pensar na crueldade que foi a morte dele sem ter pena da raça humana.
Vi o filme, e fiquei com a canção do Chico uma noite um dia.
Zuzu Angel - dirigido por Sérgio Rezende, com Patrícia Pillar (Zuzu Angel); Daniel Oliveira (Stuart Angel); Leandra Leal (Sônia); Luana Piovani (Elke Maravilha); Paulo Betti (Carlos Lamarca); Nelson Dantas (Antônio Lamarca); Antônio Pitanga; Elke Maravilha. No filme, resgataram alguns atores do filme Lamarca. Eu confesso que não sabia que as torturas que aniquilaram Stuart era para que ele confessasse o paradeiro de Lamarca. E a cena tocante de Zuzu visitando o pai de Lamarca traduz a impotência diante do poder. Nelson Dantas em uma interpretação sublime, os grandes também morrem. Mas, antes nos dão lições, Nelson Dantas era grande.
Descobri uma foto do Stuart, pois Daniel de Oliveira é apenas o ator, excelente, magnífico, no entanto, breve ele estará incorporando meu amigo Frei Betto em Batismo de Sangue. Antes, ele foi Cazuza... e é preciso lembrar os rostos verdadeiros, o jeito calmo de Stuart, e foi assim que ele foi mostrado no filme, uma vida cortada na raiz, como tantas outras vidas.