Friday, August 25, 2006

frei betto


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... fui jogado num cárcere, ainda em junho de 1.964. O que passa pela cabeça de um jovem de dezenove anos, leitor de Kafka e Erich Fromm, admirador de Franz Fannon, e que marcha diante do prédio do consulado americano, no Castelo, gritando "Yankes, go home!", e se dessenda no Teatro Opinião, em Copacabana, embebendo-se de arte?
Todas as prisões políticas são igualmente cruéis e ridículas. Sócrates foi prisioneiro político, acusado de corromper os jovens e desacreditar os deuses. Todos os prisioneiros políticos, desde então, receberam a mesma acusação, não há exceção. Mesmo Jesus andava seduzindo um grupo de jovens com quem partilhou sua última refeição e ao qual proferiu a mais radical confissão atéia: negou a divindade de César e o caráter sagrado do Templo, e proclamou que ele, o pobre de Nazaré, filho de carpinteiro, era o Messias.
Todos somos discípulos de Sócrates, nós, que antepomos os jovens ao velho mundo, à velha ordem, e negamos os deuses de conveniência do mercado.
Nem tudo, entretanto, era sombrio. Naqueles idos de nouvelle vague e Marilyn Monroe, de Oscarito e Grande Otelo, havia a festejar as derrotas do Império: Os vôos do Sputinik, o êxito da Revolução Cubana, os barbudos descendo sorridentes Sierrra Maestra, o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, a surra levada pelos americanos no Vietnã, a revolução musical dos Beatles, o maio de 1968, o corpo ostentando a sua carta de alforria, o velho mundo chegando a seus estertores. E eu era parte do futuro, artífice de uma história implacável, irreversível, o alvorecer de todas as esperanças. Che abandonou seu cargo de ministro, as loas do poder, e anônimo, meteu-se no Congo e, em seguida nas selvas da Bolívia. Pulsava célere o coração da América Latina: um, dois, três Vietnãs!... Em minhas mãos, modelava-se o feto de um novo mundo, o imperialismo agonizava a olhos visto, e em seu enterro eu estaria lá para jogar o meu punhado de terra...
A MOSCA AZUL - pg. 33, 34 - Ed Rocco - FREI BETTO
. A Mosca Azul é uma reflexão sobre o poder. Hoje é aniversário de Frei Betto, dominicano, ativista dos Direitos Humanos, escritor.