Thursday, February 15, 2007

SIERGUEI IESSIÊNIN







palácio de gelo - São Petesburgo


O homem morto mais belo que vi, foi em uma fotografia, em um livro que lia, de poesias de Maiakóvski - Sierguei Iessiênin. Dormia, no hotel Inglaterra, com uma placidez na face que tocou a alma, não poderia estar atormentado, queria descansar, apenas. Não creio nos dogmas, mas, na liberdade, de quem deseja descansar. Descansava, com uma roupa de sua época, os cabelos de trigo, o rosto de beleza imensurável, eternizado em versos e beleza. Plena de Rússia e meninos belos, tirei da gaveta uma poesia antiga, escrita quando rebeldes chechenos invadiram o teatro... pensei em reescrever quando aconteceu o massacre em Beslan, mas, afinal, ainda não aprendi a tirar a pele materna para falar de meninos mortos, crianças martirizadas... Desligo a tv e não abro nem um e-mail que fale sobre o menino morto no Rio de Janeiro, não faço poesia com esta atrocidade, calo o nome, não olho a fotografia, a barbárie extremada não se resolve com leis, incisos, parágrafos...



OURO & AZUL

Bárbara Lia


A Rússia é feita de lágrimas.
Tragédia regada à ópio.
Sangra mais que nuvens de Moscou
e o ouro azul das rosas.

A Rússia sempre sangra, balalaika chorando.
Girassóis por tanques esmagados.
Botas regendo a cantata do impossível.
Meninos mortos em submarinos submersos.

Rasgo meu dedo no espinho da rosa,
beijo a foto de Iessiênin morto,
escrevo em sangue no pergaminho branco -
"A Rússia não é vermelho-sangue,
é ouro & azul"



RÉQUIEM PARA UM MARINHEIRO


.No coração do coração da Rússia
No casebre de madeira
No qual nasceu o poeta Sierguei Iessiênin
Até mesmo as tábuas do soalho cantam
Sob os passos pé ante pé das crianças
Um canto mais delicado que o dos pássaros
Por quê?

Porque no porão, sob o chão,
O cordão umbilical de um poeta
Foi soterrado.
E onde quer que se encontrasse,
Em Moscou ou Nova York,
Seu cordão umbilical o puxava
Para casa
Para os odores da lenha que secava
Crepitando
Para as canções das últimas tropas
Da guarda nacional dos grilos russos.
Não é verdade que Iessiênin

Se enforcou em São Petersburgo.
Foi seu cordão umbilical que o lacerou
No aperto do abraço.
Seu cordão umbilical
O tinha ligado para sempre
Não à morte tão esperada,
Mas à sua amada Anna, ressurgida,
Que uma vez o rejeitou
Quando era jovem e vivo.
E mais de meio século depois
Jovens marinheiros russos cantaram
Sua canção: “Meu Ácer Desfolhado”
Sob as águas do Norte
Num submarino condenado
Engolindo desesperadamente as palavras
Junto com as últimas migalhas do ar de casa.
O seu canto camponês veio à flor da água
Sobre as ondas como sulcos de espuma
De um campo recém-arado.
Por que aquelas ondas mataram os rapazes
Que cantavam o canto de Iessiênin
Sobre as notas de sua guitarra submarina?
Adeus, meus “rodnìe”.
Só em russo existe
Essa expressão insondável:
“compatriotas” ou “caríssimos”
“mais sinceros”, “amados” e “queridos”.
Não há segredos militares eternos
Há somente um único segredo: a alma humana.
Os discursos sobre a imortalidade dos heróis
São para as mães apenas palavras vazias.
Como uma mãe poderia velar
Seu filho sepultado num cemitério
Tormentoso?
E se hoje a Rússia inteira,
Como o submarino ferido,
Não pudesse mais sair à superfície
Do abismo,
Seria ainda possível recuperar,
Sepultado no solo ou nas águas russas,
Como último recurso,
Seu cordão umbilical?


Ievguêni Ievtuchenko(Poema em homenagem aos marinheiros do submarino russo Kursk, publicado no jornal “La Reppublica” e traduzido do italiano para o “EU&Cultura” do jornal “Valor”, em 2000)


.

A Sierguéi Iessiênin


Maiakóvski

Partistes,
como dizem
para o outro mundo.
O vazio...
Estais
planando,
até o céu bordado de estrelas.
Chega de adiantamentos
e de pinga.
Sobriedade.
Não, Iessiênin
isto não é
zombaria.
Na minha garganta
nada de escárnio
mas uma bola de tristeza.
Eu vos vejo
com uma mão de cera hesitando
agitar
o saco
de vossos próprios ossos.
Parai,
deixai para trás!
Que idéia é essa
de derramar
no vosso rosto
este giz mortal?
Vós
que sabíeis escrever coisas
como ninguém
no mundo.
Por quê?
E como?
Derramam-se em hipóteses
Os críticos gaguejam:
“De quem é a culpa?
Muito a dizer...
mas sobretudo
lhe faltava ‘ligação’
O resultado?
Muita cerveja e vodca.”
Dizem
que vós deveríeis
ter trocado a boêmia
pela classe;
A classe vos teria influenciado,
fim das brigas.
Mas essa classe
a sua sede
ela a sacia com kvas?
A classe
ela também, para beber
entende um bocado.
Dizem
que se vos houvessem juntado
alguém de Sentinela
teríeis
feito
muitos progressos:
poderíeis
a cada dia
escrever
vossos cem versos,
chatos
e compridos
como Doronine.
Para mim
se este delírio
se tivesse realizado
vós teríeis
muito mais cedo
sobre vos mesmo se atacado.
Melhor
morrer de vodca
do que de tédio!
Nem a forca
nem a faca
nos darão a chave
desta perda.
Talvez
se tivesse havido tinta
no Hotel Inglaterra
o Senhor poderia ter evitado
de se cortarem as veias.
Os imitadores se alegram:
“Bis!”
Todo um pelotão
que faz
sobre si mesmo, justiça.
Por que
aumentar
o número dos suicídios?
Melhor seria
aumentar
a produção de tinta!
Para sempre
agora
esta língua
fica presa atrás destes dentes.
É duro
e deslocado
fazer mistérios.
O povo
aquele que cria a língua
perdeu
um de seus artesãos
farristas
e sonoros.
E trazem
as quinquilharias dos versos funerários
quase os mesmos
desde o último enterro.
Deveríamos dispersar
no féretro
com um cajado
estes versos inexpressivos.
É assim
que se homenageia
um poeta?
Ainda não vos
construíram um monumento;
onde estão os quilos de bronze
ou os gramas de granito?
que diante da grade da lembrança
já traga
mas bugigangas
das homenagens e dedicatórias.
O vosso nome
é colocado em lenços,
Sobinov
baba as vossas palavras
e sob uma árvore magrinha
ele agoniza:
“Nem mais uma palavra, meu amigo,
nem um suspi-i-i-ro”
Ah!
é de outra forma que deveríamos falar
a esta espécie
de Leonid Lohengrin!
Levantar-se
em fulminante escândalo,
– Eu não permito
que se mastigue
e se massacre
assim os versos!
Assobiar com os dedos
até deixá-los surdos
e mandá-los ao diabo!
Que fujam
esses detritos sem talento,
enchendo
as velas de seus paletós.
Que Kogan
levado em sua debandada
espete os transeuntes
com seu bigode.
A sacanagem
hoje em dia
ainda não ficou rara.
A tarefa é grande
mal bastamos
É preciso primeiro
refazer a vida,
uma vez refeita
poderemos cantá-la.
O nosso tempo, para a pena,
não é muito fácil.
Mas digam-me
os aleijados, os impotentes.
Onde
e quando
aqueles que são grandes
escolheram
os caminhos traçados e fáceis?
A palavra
é capitã
da força humana.
Para a frente, andemos
e que o tempo
estoure em bombas.
Que o vento que sopra
para os dias passados
só leve
mechas de cabelos misturados.
Para a alegria
o nosso planeta
ainda está mal preparado.
É preciso
extorquir
a alegria
aos dias futuros.
Nesta vida,
morrer não é difícil
Construir a vida
é bem mais difícil.

Fonte: Maiakóvski. 2006. Vida e poesia. SP, Martin Claret. Poema originalmente publicado em 1926.