Saturday, March 17, 2007

POESIA MORTA

publicado na coluna do Site Vejo São José:


14 de Março- dia da poesia – eu em casa vendo TV, no final do telejornal do SBT – horário nobre, nem sei quem era o jornalista ali recitando Raimundo Correia
– Vai-se a primeira pomba despertada – Falando de Olavo Bilac e Castro Alves, como se nos últimos cem anos ninguém escrevesse poesia no Brasil. Não vou querer que o cara conheça os poetas que estão hoje lançando seus livros e fazendo a poesia AGORA. Mas, nem um Drummond, um Bandeira, nem um Gullar ou uma Cecília, seria mesmo estranho se jornalistas comuns conhecessem Hilda Hilst, quer dizer, em qualquer país civilizado, seria muito estranho um jornalista não conhecer a Hilda Hilst, a Orides Fontella, a Ana Cristina César... Então, o cara acaba com a festa, concluindo com um verso de Álvaro Alves de Faria - "Toda a poesia brasileira/ guardo numa caixa de sapatos/ e ainda sobra espaço/ para as coisas que não desejo mais”.
Depois fiquei pensando no Álvaro e fui pesquisar esta poesia e encontrei uma página- desabafo do poeta, que começa assim...
" Na contramão
Passo a ser um exilado da poesia brasileira. Graças a Deus. A ordem agora é manter distância de muita gente. A mediocridade cansa. Chega uma hora em que não dá mais para conviver com
ela. A saída é a poesia de Portugal. Pelo menos para mim. Cansei também desse jornalismo que se diz cultural e que não tem compromisso com absolutamente nada. É o desencantamento completo. Pobre poesia brasileira, descontadas algumas exceções.
Sou de uma geração de poetas, dos anos 60, que é feita de alguns nomes sérios. Cansei de ver nomes de “poetas” inventados da noite para o dia pela chamada mídia cultural, que não resistem a uma crítica razoável. Cansei desses que ocupam as redações com as regras do AI-5 ainda debaixo do braço. No tempo da ditadura militar era mais fácil. No tempo da ditadura militar eu criei e editei por doze anos o suplemento cultural do extinto Diário de São Paulo.
Era um suplemento democrático. No fechamento, nas sextas-feiras, muitas vezes tive um censor da Polícia Federal ao meu lado. Hoje os censores são outros, muito piores. No tempo da ditadura militar eu fui preso cinco vezes pelo Dops, por falar poemas no viaduto do Chá (“O sermão do viaduto”) com microfone e quatro alto-falantes. Mas no tempo da ditadura era mais fácil..."
O texto todo está no:
http://www.revista.agulha.nom.br/aalves5.html
*Eu gosto imensamente de alguns livros do Álvaro, quando estive em uma oficina ministrada pelo Joba Tridente, na Fundação Cultural em 1.998, ele sacava o livro do Álvaro - Lindas Mulheres Mortas - nos intervalos e lia para a gente. Depois disto, eu fui procurar os outros livros do Álvaro e fui sacudida pelo -Sermão do Viaduto- que ele escreveu aos vinte e poucos anos e que lia em voz alta no Viaduto do Chá...
Era de uma beleza estonteante aqueles fragmentos, pedaços de um livro divino, o que levava os agentes da repressão a prenderem o menino, pensando que ele era comunista, sem entenderem que a transgressão maior é ser poeta.
- Meu coração é um campo ensangüentado de solidão-
- A ponte não ajuda ninguém a atravessar -
- Tenho quarenta cruzeiros e quero beber uma estrela.
Eram frases rascantes, assim como era de navalha na carne os versos que o Joba lia, do livro - Lindas mulheres mortas - poesias que Álvaro escreveu falando das putas. Um livro inteiro de lingeries e navalha e sangue, e dor viva...
É que os dias disso e daquilo, nada significam, as datas nada significam, a Anistia Internacional está com uma campanha para acabar com a violência contra as mulheres. No Iraque as mulheres estão sendo estupradas, no Sudão... No resto do mundo a alma das mulheres é violentada. Quando a dita igualdade é negada. Fica tudo sem sentido – Dia das mulheres, Dia da poesia.
Revi - As pontes de Madison – um belo filme sobre uma dona de casa que tem um caso de amor enquanto a família viaja, e guarda segredo por toda a vida, em uma cena o filho de Francesca fica indignado quando descobre que a mãe teve um amante, se ele descobrisse que o pai teve uma amante, a reação seria outra... O que sei de ser mulher é que dói - escrevi alguma coisa sobre no dia das mulheres. Por que sou empírica e não sou doutora em coisa alguma... Fico dizendo do que vivo. Filtrando este imenso espanto que é ser Bárbara Lia, esta vida que cai Niágara em minha cabeça e corpo e coração... Dói ser mulher, este sal de pétalas que somos. Beleza que tem espinhos.
Fiquei chocada diante do telejornal da SBT, um genocídio instantâneo, em uma pequena fala sobre o dia da poesia - o cara matou todo mundo depois de Castro Alves - não existe poesia pós-Castro Alves e Olavo Bilac... Muito triste! E encerrar com o símbolo da indignação contra o panorama atual da poesia - Álvaro Alves de Faria?
Bem, o Álvaro tem opinião, e quem tem opinião tá mesmo ferrado, marcado e atirado ao canto com um lençol negro em cima... Vide o maior escritor vivo do Brasil - Fausto Wolff... Qualquer um que seja corajoso o suficiente para ter opinião própria e não se vender a nada, não comprar nada, não negociar nada em nome da poesia e da beleza, vai ser jogado de escanteio, ignorado pelo grande circo... Em outro país o Fausto Wolff teria reconhecimento de seus poemas que são mesmo líquidos e vivos... de seu romance - o mais belo romance do Brasil no século passado - À mão esquerda. São rápidas pinceladas sobre dias & dias, da mulher, da poesia, e estas coisas tão supérfluas como tem sido tudo - Nada disto importa, a vida importa, para onde ir, com quem ir, e o que escrever daqui para frente, amanhã. Seguir. Ando pensando pontes, atravessando pontes, embriagada de pontes... Tão belas as pontes, embora não ajudem ninguém a atravessar...
BÁRBARA LIA