Sunday, June 10, 2007

SONHOS EM PRETO E BRANCO


Esta sou eu, descalça nas enxurradas,
manhãs esperançadas.
Esta sou eu, adolescente,
indo ao colégio, olhos fixos
na estrela vespertina.
Esta sou eu, lendo à luz da lamparina
na madrugada,
olhos percorrendo páginas amarelas,
passeando por poemas barrocos
na companhia de estrelas foscas.
Esta sou eu, espiando por entre balaustras
o sobrinho do professor de francês,
seus olhos verdes, sua pele jambo,
na varanda da casa da esquina.
Esta sou eu, na mesa do café da manhã,
ouvindo a pergunta diária do pai:
— teve sonhos coloridos ou em preto e branco?

Dez anos, pequenina cidade de Peabiru.
Quantas mentiras meus olhinhos beberam
no Cine Vera?
Amor passeando de lambreta
rasgando ruas de Roma,
a beleza exótica — Troy Donahue,
a professorinha enamorada
na garupa...
O amor idealizado
"Candelabro italiano"


Esfarrapado e imundo
dei de cara com ele, enfim,
mendigo extraviado
que implora pra ser notado.
Eis o amor,
despejado
humilhado
não vive em estrelas
nem mar profundo,
nem no limite do mundo,
está sempre no meio do caminho
pedra
poema
estirado
cão sublime à espera
de um dono franciscano
que o acolha
com todas as chagas
e enganos.

BÁRBARA LIA