Tuesday, May 27, 2008

Minas Gerais



Maria Fumaça (João Barcelos)


(A primeira vez que vi meu pai chorar foi em Ouro Preto, diante do túmulo de Bárbara Heliodora. De Minas veio meu nome, o que meu pai escolheu, de alguém que ele admirava. Frei Betto sugeriu, em um batismo literário, tirar meu sobrenome assinar meus textos como Bárbara Lia. Estes textos são de poetas e escritores mineiros que conheci nesta trajetória poética. Ainda falta de Ana Lúcia Vasconcelos, e com certeza de outros mais. É apenas uma pincelada, uma Maria-Fumaça rasgando o azul)



De Minas

Era domingo, a noivinha mineira toda feliz porque agora ia, subiu na charrete e zarpou. Passando no Triângulo o cavalo não fez a curva, a noiva caiu de cabeça. O noivo até hoje espera, capiau no altar, sozinho. O cravo, murchinho, na lapela, cheirando a defunto.
Leonardo Fernandes Paiva



Domingo de circo

Toda tua chegada nessa radiosa manhã de domingo enbandeirada de infância. Solene e festivo circo armado no terreno baldio do meu coração.
As piruetas do palhaço são malabaristas alegrias na vertigem de não saber o que faço.
Rugem feras em meu sangue; cortam-me espadas de fogo.
Motos loucas no globo da morte, rufar de tambores nas entranhas, anúncio espanholado de espetáculo, fazem de tua chegada minha sorte.
Domingo redondo aberto picadeiro, ensolarado por tão forte ardor, me refunde queima alucina: olhos vendados, sem rede sobre o chão, atiro-me do trapézio em teu amor.

Frei Betto
(A arte de semear estrelas – Ed Rocco)
- Escritor e Assessor de Movimentos Sociais. Nascido em Belo Horizonte, estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. Autor de 54 livros de diversos gênios literários. Prêmio Jabuti, 1982 pelo livro de memórias – Batismo de Sangue – Prêmio Juca Pato por Fidel e a Religião. Típicos tipos – coletânea de perfis literários (Jabuti de Crônicas e Contos – 2.005).





PRANTO PARA COMOVER JONATHAN

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
Adélia Prado
nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935
(Ontem escolhi os meus pais-poetas. Sou filha de Rimbaud e Adélia Prado, ou, ao menos se eu pudesse escolher eu optaria pelo delírio de Rimbaud em seu barco bêbado, pela ternura de Adélia em sua casa pintada de amarelo, amanhecendo sempre, sempre, sempre...)

*

existe uma cerca de arame farpado
suspensa e tensa a flutuar
seu corte é fino
sangra, inflama a carne
a alma queima e arde por respirar

girassóis atropelados camuflados no lixo
agora passeiam cúmplices junto aos urubus
Renato Gil
Labirintos – editora Por Ora


Livro vencedor do prêmio de Poesia entregue pela UBE-RJ em 1997. Renato e eu, os únicos premiados sem acompanhante naquele prédio lá em Botafogo, em junho de 1998. Conhecia apenas dois poetas no Rio, naquela ocasião: Mano Melo e Cristina Villaça. Cristina estava dando aulas em Teresópolis e Mano – que viria para o evento – teve que regravar o último capítulo da novela Mandacaru e não apareceu. No outro dia foi meu guia turístico. Atencioso, me apresentou lugares do Rio antigo, e me fez rir e conheci a Cinelândia, comemos macarronada. Visitei Paquetá, foi um passeio e tanto. Meu primeiro prêmio, quis ir lá, mesmo que fosse apenas uma Menção Honrosa com uma crônica que escrevi sobre a Rua que eu amo, a Rua XV. “Se essa rua, se essa rua fosse minha...”
Stella Leonardos me apresentou o Renato, dois perdidos naquele evento, um menino lindo, claro, de uma inteligência que saltava em cada palavra. Nunca mais vi Renato, mas, ele me entregou o seu livro ali mesmo no Teatro, e escreveu – “Para Bárbara do Sul, que o norte lhe seja claro”

Re-encontro
Vício antigo
superado
de repente
se faz presente
acordado!
(O meigo menino
escondido
em teu olhar.)
A melodia da voz
trouxe em flauta
para nova pauta
o velho nós.Tânia Diniz
Natural de Dores do Indaiá, MG vive em BH, onde se graduou em Letras pela UFMG (português, francês, italiano, espanhol). Poeta e contista premiada, tem publicações impressas e virtuais, no país e no exterior. Participa de várias antologias e é citada em diversos Dicionários de Escritoras, como o de Nelly Novaes Coelho (USP). É haicaísta. Idealizadora e editora do mural poético Mulheres Emergentes (1989)
http://mulheresemergentes.blogspot.com/