Tuesday, July 22, 2008

Azul sobre o azul



Foi no pequeno espaço da antiga “Feira do poeta” que li a primeira poesia dele, em um folheto azul com a foto dele e um poema que começava assim: Passarinhos piem na minha janela / façam uma serenata para mim esta noite / eu preparo as pipocas / e a mesa com frutas /vocês cantam e comem / eu bebo e danço... Marcos Prado! Desde menino escrevendo poesias, tornou-se o poeta/letrista que influenciou toda uma geração, sua poesia está registrada no trabalho do grupo musical “Beijo AA Força”. Marcos escrevia de uma forma cuidadosa. Quem sabe, para sobreviver em uma cidade de clima frio, de pessoas fechadas em si mais que seus agasalhos. Escrevia para contestar, para comemorar a vida talvez. A figura de carisma suave e inteligência sagaz ainda é um mito. Uma lenda para quem escreve e vive e ama nesta cidade fria. Que foi tão narrada por Marcos Prado, como na poesia abaixo, onde Lápis na verdade é o nome de um compositor...
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Curitiba

vou acabar com a vida de um vício por mês
fumo meu último cigarro pela primeira vez
treme minha mão por um copo pela última vez
nunca mais encontrei a canalha da cannabis
acho que ela foi morar na tumba do lápis
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do pó eu vim, vi e venci
e não retornarei ao pó
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Curitiba
você é a única droga
que eu vou admitir na minha vida.

(Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski).
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Só quem é poeta em Curitiba consegue entender a relação de amor-ódio que esta cidade desperta. Talvez tema para muitos ensaios e livros. Este frio de almas e temperatura que nos cerca acaba por fomentar a poesia em excessiva dose, e no calor de um abraço da amada, somado a um copo de vinho, notas de uma música, é assim que nasce por aqui a poesia. Os poetas usam sua incrível vocação para sobreviver a esta cidade. Por isto penso a poesia de Marcos Prado como uma mina que não se esgota, ao mesmo tempo é visceral, altamente confessional, contestatória, mas, atemporal. Marcos Prado conseguirá dizer às gerações futuras o que disse à sua, o que diz a esta que hora trafega à sua sombra como...
...Tristes homens azuis

eles se vestem de branco e de negro
e os outros vêem azul
porque não são brancos nem negros
os tristes homens azuis


ninguém nasce azul
não se põe no mundo
alguém azul
mas quando a noite baixa
se levantam
os tristes homens azuis.
Marcos Prado