Wednesday, October 08, 2008

Patchwork #4




Quarta percepção – A alma é um beija-flor.

Magnólia sabia que não era só corpo.
Enrustida dentro vibrava em agonia ou alegria:
A alma.
A alma tem o peso de um beija-flor.
21 gramas.
Sabia depois de Guillermo Arriaga e de seus enredos únicos. Finalmente o cinema americano tinha alma, embora fosse alma de um mexicano. Tinha alma e ela pesava 21 gramas.
Na infância a percepção da alma trazia um estranhamento que a tirou do tédio.
Então somos algo mais...
Mais que barro, bem mais que terra & água modeladas por um Criador.
O sopro de Deus tinha 21 gramas e inflava dentro esta angústia ou esta sensação de hosana.
Sabia que a alma pesava pouco quando era feliz. Elevava a potências infindas quando vinha a dor. A dor aumentava o volume metafísico do elemento que nos aproximava de um éden.
Magnólia não gostava de perder tempo pensando no éden. Achava um desperdício viver em função do desconhecido.
Achava enganação acreditar no perdão e em reinos que cobririam todas as dores...
Na varanda do amado, em um final de inverno, ela veria o beija-flor.
A um palmo de seu rosto.
Penugem de veludo verde escuro olhos mínimos negros.
Esteve mais próxima do beija-flor que jamais estivera de outra alma.
Um diálogo de olhares de Magnólia com o beija-flor:

- Voas?
- Por vezes...

Foi a resposta de Magnólia à súbita interrogação.
Para provocá-lo pensou – sabendo que eles lêem mente como todos os pássaros...
- Minha alma tem o peso da constelação Ursa Maior -O beija-flor arregalou os olhos negros e teve pena de Magnólia.
Ela queria tocar o veludo verde que cobria o corpo mínimo e ele se foi sem que ela tivesse tempo de estender as mãos.
BÁRBARA LIA