Monday, January 05, 2009

como a flor e a guerra






“Direi agora a aquele cadáver que seu filho ainda está entre os vivos.
Sim, direi ao mundo as palavras de um poeta morto há muitos séculos.
Direi que os filhos da terra seguem perdidos pela superfície.
Acreditando que seus corações são cometas.
.
Chegam até as palavras daquele verão como ondas cansadas.
Minha loucura é a de um menino doente,
e eu a alimento com cuidado.
É chegado o tempo dos assassinos.
.
A glória de quem move todo o mundo escrevia,
copiando os versos do único livro que leu.
E eu continuo aqui.
.
Continuo aqui.
Anuncio a chuva e a tempestade.
Anuncio o futuro toda vez que olho o passado.
.
Como um mapa com os continentes submersos.
Sozinho…
Sozinho.
..
Só em todas as madrugadas como a flor e a guerra.
Como a flor e a guerra.”
.
Do filme: El camino de los Ingleses
De Antonio Banderas
Inspirado na obra de Antonio Soler
...
Existe um caminho que pode levar você a qualquer parte - é a frase do filme. Este filme de Antonio Banderas tem pinceladas de Almodóvar. Impossível Banderas não ter esta influência, mas a vertente poética faz chover uma certa ternura ao redor. Alberto Amarilla interpreta o menino que está em um hospital para extrair um rim e ao lado dele um velho poeta. Ele deixa o hospital decidido a ser poeta e com um livro nas mãos - A divina comédia - sai em busca de sua Beatrice. Até que a personagem interpretada por Victoria Abril, uma mulher mais velha que inicia o garoto, abre os olhos do menino - Beatriz não existe. É preciso chamar a mulher amada pelo seu nome real. Como a dizer para detonar os mitos. Li algumas críticas negativas. Como existe a presença da poesia e as falas em algumas cenas são poemas e pela evocação do tempo sublime das descobertas... gostei muito. Com certeza todas as mulheres um dia esperaram, com chuva ou sem chuva, por um cara que não apareceu, como a personagem de Maria Ruiz. O ontem e o hoje gritando ao meu lado. O ontem da poesia do tempo em que eu repartia tudo, como no filme, bandeiras ao vento, as canções do Chico, a certeza de que o mundo cabia no bolso e a lua na lapela. Esta é a lembrança que traz o filme, o tempo do poder, das ilusões, dos planos. O hoje gritando que o homem cresce (a maioria) que o homem amadurece e vira adulto. O mundo continua criança mimada. Birrenta e egoista. Foi um paralelo estranho, de flor e guerra. O mundo é uma eterna criança. Sem poesia, com todos os rins e sem coração. Explodindo tudo com o ódio crescendo nas entranhas. Nublando a paz com tanques e invasões. O caminho do mundo só o leva a uma parte - o fim, o caos, apocalipse e destruição. E está no mundo da lua quem pensa que Obama vai mudar o panorama.