Thursday, January 08, 2009

O inverno de 1.969

Outono lembra despedidas, folhas a cair, árvores desnudas com braços estagnados. Mas, outono ainda tem brisa suave e um certo encanto a embalar as almas. O inverno, este sim, é implacável. Desesperança de gelo, crianças congeladas nas calçadas, campos brancos como lenços de despedida. Noites tristes de quem não tem o calor de um abraço.
Inverno é o ponto extremo do congelamento da alma. Frio cortante congelando artérias, susto de descobrir-se finito e abraçar a perda num gesto mudo, sem apelação, retrocesso, chance – Ponto final.
1.969 – o inverno mais triste de nossas vidas. Nem importa ser saltitante, vibrante, sapeca. Nem importa o futebol no fim de tarde com meu irmão e amigos, nem se existem mil planos, suposições e hipóteses para uma vida que se descortina. Meu voar nos sonhos acalentando o futuro precioso – Sim, um dia terei um amado, filhos, vida em rosa. Erguer castelos com cortinas de rendas, tons pastéis em paredes imaginárias e belos risos de crianças.
Eu, criança ainda, sonhos aflorando, menina-moça-quase-mulher neste inverno que acena e brilha nas geadas das madrugadas. Cruzar avenidas com minha saia bordô, minha blusa branca, as meias ¾. Ir ao colégio sonhando a vida, naquelas ruas marrons de Peabiru.
Os amigos, as canções de Caetano, “Love and peace”, revoluções.
Noites de estrela feito véu cintilante cobrindo nossa cidadezinha.
Ao meu redor, minha avó aristocrática em seu eterno luto. Postura de realeza que me comovia com seu ritual diário de beleza. Mamãe, simples como todas as filhas de Iracema, olhos mel adoçando meu mundo. O seu perfil exato, perfeito. Uma luz etérea que percorria olhos e lábios iluminando tudo. Eu tinha espelhos de feminilidade por toda a casa... Sim! Eu também queria ser uma estrela e criei coragem. Tímida, franzina, eu decidi agir como as filhas de Eva. Naquele dia decidi depilar minhas pernas.
Trancada no banheiro, com o cortante aparelho de barbear de papai, pernas sobre a pia, ritual primeiro. Na primeira tentativa, carne lacerada, rasgada. A gilete cravada na batata da perna esquerda em insuportável dor. Eu que não suportava sangue iniciei os cuidados com o fundo corte. Ficaria ali, trancada, até estancar o sangue.
Foi então que ouvi o choro na varanda ao lado. Como quem ouve uma notícia distante. Como quem quer inverter as palavras, mudá-las. Querendo não acreditar. O curativo que coloquei às pressas não cobria o corte e não estancava o sangue. A dor ficou esquecida. Doía mais e mais o coração. Alguém dizia que meu primo estava morto. Mentira!... Eu pensava. A dor foi rasgando meu coração e alma ouvindo uma história entrecortada de soluços – Um caminhão estacionado em local proibido, uma curva rápida e a vida se apaga aos vinte e três anos. E aquele olhar calmo? E os cabelos de anjo, anelados, castanhos? E a presença bonita em nossas vidas?
Fui até a casa dele. Queria ver para crer, torcendo por um engano. A poeira bebendo meu sangue em gotas ininterruptas.
Uma semana depois o homem pisou na lua. Em minha cabecinha inocente não cabia aquela verdade.
“Como ele pode morrer sem ver o homem pisar na lua?”.
Neil acenando dentro do macacão e só uma dolorida saudade. É carne lacerada com vida se apagando. Não consigo separar a lua desse momento. Cicatriz de lua em meu coração; meia-lua em minha perna esquerda. E pode passar uma vida não esqueço a beleza de um anjo que caminhou suave e me acena, ainda, de uma fictícia lua. Partiu conquistando outro mundo, deixando um eterno vácuo – cicatriz no coração e alma.
Bárbara Lia
(As sete casas de Mira Morena)