Sunday, April 26, 2009

estante #16

DUAS POESIAS - MÁRCIO CLAUDINO:
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O segredo do silêncio
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"Jogavam-se nas tumbas sementes de painço e papoula
para nutrir os mortos que chegavam voando -- pássaros".
(Czeslaw Milosz)
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Não pises assim a minha relva.
Não a manches com os cabelos
nem sais amargos dos teus olhos.
Só pés de brisa enluarada
poderiam supor pisá-la.
Seja leve, delicado
e até breve.
Não ores, não estou ali.
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Alguém tocou o sepulcro e lhe deu este nome:
Canteiro.
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Alguém tocou o meu corpo e lhe deu outro nome:
Semente.
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Plantado à cabeceira do canteiro com cruzes,
sou árvore.
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Árvore!
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Depois,
pássaros me disseram que serei pássaro.
Depois vento, depois nuvem
então anjo, o teu arcanjo.
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(Arcanjo,
te abençoarei
sim,
saberei quase todos os segredos)
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***
Do Amor e Outros Objetos Cortantes
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1.
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Eles se esquecem em divãs solitários
depois de beberem água-tofana
ventanias, temporais , absinto.
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Atormentam-se com palavras,
queixas e olhares
e seus corações urdidos em noite tênebra
estremecem pelo avesso.
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Perdem a chance
de serem felizes
porque carregam
nos ombros
pianos de chopin,
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cáctus de culpas infalíveis,
almofadas intoleráveis de vaidades,
nuvens de audácia malsã.
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2.
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Deitados em divãs
inclinam-se para o poço
escutam a música de Hades e Eros
atônitos e imóveis.
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Desfilam nus
pelo apartamento,
deixam copos pela metade,
cancro mortos nos cinzeiros,
roupas pelos cantos
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(acordam multidão de solidões
pesam numes a troco de pesadelos).
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E um dia
irão embora sem cumprimentar-se
como se nada houvesse acontecido.
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MÁRCIO DAVIE CLAUDINO
O SÁTIRO SE RETIROU PARA UM CANTO ESCURO E CHOROU