Monday, June 15, 2009

Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch

A esta altura sinto-me compelido a tocar numa questão que, embora altamente pessoal pode interessar a todo mundo. Como escritor de alguma fama - talvez uma fama duvidosa -, tenho, naturalmente, muitos jovens escritores entre os meus visitantes, ou escritores em potencial. Quando sou informado de seus objetivos e propósitos ao escolher a atividade de escritor, sou obrigado a me fazer as perguntas mais fulminantes. De que maneira, pergunto a mim mesmo, sou de fato diferente desses novatos? O que ganhei, produzindo um livro após outro, e que eles não têm? E por que deveria encorajá-los, quando tudo o que fazem é aumentar minhas próprias dúvidas honestas? Vou explicar... todos esses rapazes (e moças), como acontecia comigo, antigamente, não desejam nada mais, nada melhor do que escrever o que querem e ser lidos pelo maior número de pessoas possível. Querem expressar-se, dizem. Muito bom. ("E qual é a dificuldade?", torno a me perguntar.) Depois que se expressarem querem ser reconhecidos e comentados por seus esforços. Naturalmente.("Quem vai impedir?") E sendo reconhecidos, sendo aceitos, querem gozar os frutos do seu trabalho. ("Humano, demasiado humano.") Mas - e aqui está a questão, a questão vital: será que vocês, meus queridos jovens entusiastas, têm qualquer idéia do que querem dizer, ao falar em "frutos do trabalho"? Já ouviram falar de "fruto amargo"? Não sabem que, com o reconhecimento, ou o "sucesso", se preferirem usar esta palavra, vêm todos os males da criação? Não percebem que, ao realizar seu propósito, jamais terão permissão para colher a recompensa com que sonham? Sem dúvida, imaginam para si mesmos um lar tranqüilo no campo, uma esposa amorosa que os entenda e um bando de crianças felizes, satisfeitas. Visualizam a si mesmos produzindo uma obra-prima atrás da outra, num cenário onde tudo funciona como um mecanismo de relógio.
Mas que decepção os espera! Que aborrecimentos e tormentos estão de emboscada para vocês! Dêem-nos seus pensamentos mais poderosos, abalem o mundo até os alicerces - mas não esperem escapar do seu calvário! Quando tiverem lançado suas criações, tenham a certeza de que serão voltadas contra vocês. Serão grandes exceções, se não forem esmagados e engolfados pelos monstros que vocês mesmos gerarem. Com certeza, chegará o dia em que olharão para o mundo como se ele jamais tivesse recebido o impacto de um único pensamento elevado. Ficarão aterrorizados e perplexos ao ver até que ponto tudo se tornou inteiramente torto, até que ponto vocês e aqueles com quem competiam foram mal compreendidos. O mundo que inconscientementem ajudaram a criar os reivindicará não como mestres ou árbritos, mas como suas vítimas.
HENRY MILLER
Big sur e as laranjas de Hieronymus Bosch
tradução Sonia Coutinho
José Olympio Editora, 2006