Saturday, September 26, 2009

No Caminho com Ia Santanche

A Divina Comédia de Dante

1.

Em uma manhã de maio de 2001 li no jornal – Gazeta do Povo – uma matéria sobre teu espetáculo solo - A cadeira do consultório do Dr. Gachet. Na época estava tocada pela leitura do livro de Van Gogh – Cartas a Theo. Foi um momento especial aquele em que detive meu passo no último degrau após sua apresentação e não desci a escada. Voltei para dizer da beleza daquela apresentação, uma performance poética que traduzia Van Gogh e a luta de muitos artistas. Para muitos artistas é como se a vida gritasse não e o artista tem que gritar mais alto o seu sim, mesmo que seja com um tiro que eternize a obra. Não ousei sair de lá sem dizer o quanto fiquei maravilhada com aquele momento. Nos últimos anos escassos de tempo e de encontros planejados por nós – que não aconteceram ainda - não pude perguntar sobre a Ia antes daquela noite de sábado na Livraria Arcádia. Como foi a menina Ia e quando a Arte a tomou pela mão e a deixou em um palco para clarear em luz de Van Gogh e Clarice e tantos outros que você interpretou?

Ainda bem que vc voltou...

A menina Ia-? Às vezes eu penso que no teatro eu vivo e no mundo interpreto, no teatro se vai fundo! Na época de escola tinha uma professora de Literatura Ani que sempre dava pontos a quem recitasse poemas, e eu sempre fazia altas interferências, apagava a luz entrava com velas, figurinos. Chegou o vestibular, foi a voz dela que me veio na mente, vc devia fazer teatro, e fui! Deixei a faculdade para trabalhar, mas a arte nunca. Segui minha carreira com uma frase de Eugenio Barba “precisamos aprender a aprender” Isso foi fundamental para mim, pois sempre senti uma angustia nos meios de educação, como se aquela não fosse a minha forma de absolver e nunca fui boa aluna, pois me distraia muito com minha imaginação. E quando li “a imaginação é mais importante que o conhecimento” de Einstein foi o inicio de algo. Esse ser fez parte de mim, lia tudo dele e sobre ele aos 11-12 anos. Entendia a poesiafisica dele e ia mal na escola. A escola para mim foi um sobreviver, no fim apareceu Ani que me indicou o caminho que percorro até hoje. Eu tive uma grande amiga de escola que me situava no mundo, ela dizia que ia ser artista, e quando ela morreu eu demorei de sentir o distanciamento, eu sonhava e conversava com ela constantemente, principalmente porque foi um acidente e nossa rotina continuava. Para mim e tudo um momento presente constante...


No palco, em Salvador

2.Quando você encenou – Van Gogh - lembro que estava retornando da Itália. Itália que eu amo. Conte sobre esta experiência em outro País. O aprendizado, as diferenças entre o público europeu e o brasileiro.

Foi engraçado! Perante as dificuldades eu estava meio achando que o que eu tinha escolhido não me era destinado. Triste em São Paulo, naquele time is Money vim respirar na Bahia. Minha grande amiga Jerusa, me emprestou, Cartas a Théo, na intenção de me motivar, e fui além, contato com essa obra foi... transformador. Me senti minúscula perante ao amor de Vincent pela arte, eu só pude renascer com ele, através dele! Aquele Solo é uma história de Amor! Van Gogh é Paixão eterna. AMO AMO AMO AMO AMO. O texto veio dos que Vincent leu e os que leram Vincent.

Itália. Eu já na Bahia soube que ia ter umas oficinas muito interessantes de um pessoal de teatro da Itália, não tinha como pagar o curso, me ofereci de interprete, e foi lindo!!!!!!!!!!!!! Convivi direto com o diretor, e terminou sendo bem mais produtivo, pude observar as coisas do lado da direção, conversei sobre minha pesquisa Solo, terminei indo para Itália, morei em Fará Sabina que é uma cidadezinha minúscula e encantadora. Eles buscavam o silencio acolhedor das montanhas para criar. Eu fui arte 24h, entre meus estudos e as oficinas do Potlach ( o nome do grupo), estreei Vincent lá. O publico foi super receptivo, ainda me levou pra Roma!!!!!!! Eram estudantes de teatro, daqueles que os olhos brilham... Foi um dos momentos mais lindos da minha vida o período que vivi na Itália, com Vincent! Não sei muito falar sobre diferenças de publico, sinto o publico que quer entender, ou ter controle racional, e o que se entrega ao acaso da obra, isso sinto mesmo. Quando o publico é racional eu me sinto escalando muro liso, e quando ele se entrega acontece a magia da obra, a viagem proposta pela tríade antena (atriz), tema e receptores. Não que no primeiro aconteça, depende de mim escalar o muro liso...


Itália

3.Guardo com carinho nossa correspondência. Quiçá ainda organize um livro sobre uma poeta e uma bailarina ensaiando um monólogo baseado em poesias de Sylvia Plath. O Título do livro ainda guardo - tenho tantos títulos que criei um banco de títulos de livros que espero ter tempo de escrever - Guardo esta correspondência nossa e sinto saudades de receber tuas cartas com letras imensas e desenhos. Desenhar é outra vertente da tua arte?

Desenhar! Acho que entendo mais desenhos do que palavras! Desde pequena engolia a obra de Picasso e outros, minha casa tinha uns livros lindos de arte, acho que eu me perdia neles.

Tive uma infância muito só, passava tardes em cima de uma arvore do jardim, e imaginava sempre que eu era outra pessoa. Tentava desenhar, desenhava assim! Desse jeito, sem pé nem cabeça, meio tosco. Meu período materno desenhei muito com minha filha, desenhava pra não esquecer da chama! Vincent me fez pegar nos pincéis. Não sei se chega a ser outra vertente ... muitas pessoas comentam sobre os meus desenhos, gostam. Não sei muito o que dizer, eles me fazem companhia, converso com eles, cada é um ser.




4. Resuma a experiência poética, tudo o que viveu durante a montagem do espetáculo - A cadeira do consultório do Dr. Gachet. E também com o monólogo com textos de Clarice Lispector.

Essa resposta leva eternidades...vamos lá!

O contato com Vincent foi como uma paixão de fogo eterno, esse ser me revelou milhões de mundos, principalmente por ele ser autodidata, pois eu sou. Através dele senti de onde vem realmente a arte, com ele me senti forte para várias interferências. A cadeira do consultório do Dr. Gachet e só um dos filhotes. Tem minhas saídas de cavalete onde pinto jornais, separo as paginas tristes e levo para pintar com cores alegres, meu inicio ai em Curitiba foi assim, eu fui na época do festival e dancei com tantos músicos de rua. Uma benção! Tem também a desconstrução do espetáculo... Vincent é um mestre! A poesia do espetáculo foi guiada pelas sincronias, ele era o Fogo, paixão... não sei se meu corpo suporta mais a força dele.



Imagem do espetáculo - A cadeira do consultório do Dr. Gachet

Tem Pessoa também!!!!!!!!! Logo que cheguei em São Paulo encontrei um livro de bolso com alguns poemas, aquilo era meu guia, sempre na bolsa. Recitei vários! No solo A cadeira tem um poema dele. Estou tentando re-lembrar o solo de Pessoa,Ia NADA dentro do NADA é o nome, Pessoa e Bethania. Criei e nunca apresentei! Mas Pessoa é ...



Imagens do espetáculo - Clarice by Ia (Sampa)
Mas vamos para ...a linguagem alheia ou personagem meu ( ainda sem nome) Lispector by Ia ou coisas que não adiantarão para nada ou ? ou ! ou... Passei por um esvaziamento esses anos 6 anos sem pisar no palco. Me esvaziei de todos, agora Lispector. Ela é a rainha,


Flor do abismo

Rainha do abismo, se nos encantamos com a flor caímos, mas suas palavras são as asas para quem distraidamente cai no abismo.

É pelo sentir, é o andar no arame, um desejo de respirar profundo. Eu não sei o que é, estou simplesmente indo, hoje foi um lindo ensaio... é muito diferente do que estreei em sampa, eu estou mais mulher. Talvez depois do dia 2 de outubro eu saiba mais, ou me renda ao não saber. Ontem eu acordei e com um susto no peito e um pensamento que dizia – como vc vai estrear o que vc não sabe o que é! Mas hoje foi um lindo ensaio, repito a mim mesma. Hoje foi um lindo ensaio.É!

AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

5. Tempo = Arte. Recebi um Calendário Tzolkin de ti há alguns anos. Naquele tempo você viveu uma experiência em uma comunidade alternativa. Como é ser artista e caminhar à margem dos dias e dos calendários – o nosso gregoriano. Como é viver no Tempo=Arte em um mundo onde tempo = dinheiro?

É um calculo matemático onde você elimina o que é desnecessário. Tempo é dinheiro por que as pessoas querem ter ter ter ter... eu quero SER ! Eu sou arte sem arte sou morta. Tzolkin, o tear dos meus ancestrais, uma das contagens de tempo, cada célula daquela contém uma existência maravilhosa, as conexões do homem com o universo, pois somos muito mais que isso! Os Mayas tinham vários calendários, todos inspirados na natureza, e sua geometria sagrada, tudo é Harmonico! Minha adolescência foi com Albert Einstein, eu sempre gostei de física e astronomia, amo os astros estrelas giros galáticos...nos Mayas de Palenque eu encontrei a dinâmica do tempo tão intuída por Albert. Percebi que o capitalismo é um pum fedido na existência de Gaya e que já já ela se sacode e bota os minúsculos seres que desarmonizam para girar pelo espaço sideral. O problema do $ e que era um meio para facilitar o escambo, e virou o centro, é difícil não se contaminar, é um desapego constante...


Holon Humano

Por isso eu faço arte com meu tempo, isso me expande. Certas relações com pessoas que muitas vezes só enxergam uma VIA, nos encolhem. É difícil ficar batendo a cara na mesma porta como eu estou, às pessoas às vezes exigem resultados já, agora. Não quero ser capim, quero ser uma arvore cheia de sombra e frutos. Que venham os pássaros o sol e a primavera, esses sim são companhias! E a arte, sempre!

6. A tua arte é a dança. Mas, te descobri encantada com Clarice Lispector. Nos debruçamos nos poemas de Sylvia Plath e durante este tempo que trocamos palavras e impressões percebo a tua paixão pela Literatura. Quais autores você tem desejos de levar ao palco para dançar contigo ou para compor um espetáculo qual aquele monólogo com textos de Clarice?

Vários, teve uma época que eu parei de ler pois estava pirando! Levar ao palco é me aproximar através do ZuvuYa desses seres que alimentaram a elevação da humanidade. Sylvia com certeza, pois fiz uns ensaios e saíram coisas lindas, Pessoa que já existe. Bukowski, Henry Miller, Dario Fo, Calvino, Zaratustra ( Nietzsche foi outro que me pirou) Tem também a vontade de amigos presentes como Barbara Lia, Orlando, Cr Moska, Bill Molison criador da permacultura, que tem sido todo meu momento atual, permacultura urbana, Comandante Marcos do zapatismo, Galileu, Dante Alighieri ... Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii Vou ter que viver MIL anos!!!!! Tem pequeno príncipe que é um pedido de mamãe. Chega né... loucura! ... Eu re-lendo ... ainda tem mais....


Imagem de Drooker - Ave sobrevoando o labirinto

7. Ia Santanché por Ia Santanché


Teve um namorado que me disse que eu era uma semi-autista! É acho uma boa definição, mas tentarei dar a minha, uma distraída que quando percebeu a realidade das coisas já estava tão entrelaçada em outra que decidiu levar avante. UMA ZUVUYA!!!!!!!!!!!

“Zuvuya é o termo Maya usado para indicar o grande circuito da memória: é o canal direto da memória. Ele nos liga tanto ao futuro como ao passado por que se trata de uma linha interdimensional. Zuvuya é a força que impusiona a sincronicidade e conseqüêntemente, a fonte de suprimento da magia.” Enlaçadora Cósmica a morte e a transmutação juntos, isso pelos Mayas meus ancestrais que me devolveram a mim.

Um índio do futuro na nave terra...




Representação do tempo pelos Mayas, um movimento geometricamente perfeito, o A- B são as energias que formam os dias, o C os meses. Um dos calendarios em uma das contagens que eles tinham do tempo...


Ia Santanche, Atriz e Bailarina. Vive na Bahia.