Tuesday, March 09, 2010

No Caminho com Bernardo Brayner


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Bárbara Lia: O que te move quando preenche a folha em branco com belos contos?

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Bernardo Brayner: O que me move é a vontade intensa de criar algo, de revisitar coisas, sentimentos, sensações. Eu trabalho sempre com a mistura entre memória e imaginação. Acho que essa é a minha matéria-prima.

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Bárbara Lia: Gosto de cinema, artes plásticas, música... Dialogo com outras Artes. Qual o teu diálogo?

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Bernardo Brayner: Difícil essa pergunta porque tudo, a princípio, é fonte de diålogo. A vida do homem comum, um ónibus cheio de trabalhadores, artes plásticas, uma conversa de bar, um filme, um bairro, uma rua da minha infância, tudo.

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Bárbara Lia: E a tua relação com a poesia? Como você responderia à pergunta que o Edson Cruz nos fez à queima-roupa. Repasso também à queima-roupa: O que é poesia?

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Bernardo Brayner: Gosto de poesia, mas leio bem menos do que gostaria. Sempre que posso estou relendo João Cabral de Melo Neto, Herberto Helder e Paul Celan, por exemplo. O que é poesia? É James Tate em The Lost Pilot, poema que me foi apresentado por Ductilissimo Hernandez.

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Bárbara Lia: Ficção ou realidade o que li na orelha do teu livro - Exercícios de Morrer:

"Bernardo Brayner nasceu no Recife em 1975. Foi neste ano que seus pais perceberam que ele não gostava de sair em retratos"

Teus pais perceberam que você não gostava de sair em retratos, quem percebeu que o menino era escritor? Ou foi uma descoberta pessoal? O que faz de ti este grande leitor?

Bernardo Brayner: Ficção e realidade. Na verdade, eu não sei se me descobri escritor até hoje. Não me considero como tal. Apenas interessado no assunto. Sem falsa modéstia. Agora, leitor sim. É uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. É a grande descoberta. Tornei-me leitor lendo gibis. Dali passei para os livros e não parei nunca. Leito tudo. Admiro principalmente: Borges, Guimarães, Machado, Poe, Vila-Matas, Javier Marías, Osman Lins, Perec, Cortázar, Conrad, Herberto Helder. Vamos ficar por aqui.

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Bárbara Lia: Exercícios de Morrer cita continuamente a morte. Este - cantar a morte – permanece ainda hoje em teus escritos? O tema se repete em teu site Livros que você precisa ler. Na apresentação você escreveu que o site - Apresenta alguns livros que todo mundo deve ler depois de morrer - Fale sobre teu belo livro, lançado em 2005, sobre o site que você criou e, se puder ,sobre a razão do tema - morte - ficar flutuando em sua obra.

Bernardo Brayner: O cantar da morte continua sim. Mas, como eu disse, sempre na voz de escritores criados por mim mesmo no blog. Assim me sinto à vontade. Posso arriscar, criar coisas piegas também, quem sabe, misturar referências pop, ironizar a minha própria voz poética. E depois me distanciar de tudo isso, analisar friamente, fazer crítica literária de tudo isso, depois me aproximar de novo e rir. É esse jogo que eu adoro. Os livros do blog foram definidos como livros que todo mundo deve ler antes de morrer, como se a morte fosse um plano apenas imaginário, sem presença física. Acho que tenho um componente bem platônico, gosto também de Plotino e Baruch Spinoza. Borges disse que a vida é um sonho sem sonhador, algo assim, talvez a morte seja a mesma coisa. Talvez seja nada. Sempre foi uma questão que me preocupou, desde criança. Isso aparece bem forte no Exercícios de Morrer. Mas com o passar do tempo e até essa repetição do tema eu passei a ver criticamente e não sem ironia.

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Bárbara Lia: O que estás a escrever agora? Algum livro pronto para publicação? Segue escrevendo contos, ou vai surpreender-nos com um romance, ou poesias, considerando o alto nível da tua prosa poética que descobri nas páginas de - Exercícios de Morrer?

Bernardo Brayner: Só escrevo agora para o meu blog, que é de ficção também. Pretendo, quem sabe, transformá-lo em livro. Ali tem tudo misturado: poesia, narrativa, crítica literária, contos. É o que me agrada agora. E só escrevo por prazer.

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Bernardo Brayner por Bernardo Brayner:

Mentiroso.

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CONTOS DE BERNARDO BRAYNER:

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A escrita de Michel Mendelayo – 2010 – Editora Maipú.

O chileno Michel Mendelayo foi um dos expoentes da Geração McOndo. Teve seus textos recusados por Alberto Fuguet na antologia e acabou se suicidando logo em seguida. Seu livro A escrita de Porfírio, que combina muitas vezes ensaio e ficção, ficou inédito até hoje. Finalmente a editora Maipú resolveu lançá-lo. Fica aqui um trecho do livro:

“Penso escrever um conto em que um homem cria outro homem através dos corpos de escritores mortos. Penso escrever um conto sobre um homem que é enterrado em um balão. Penso escrever um conto sobre um homem que usa a pele como uniforme militar. Penso escrever um conto sobre um homem de trinta anos. É careca. Tem as mãos pequenas como as de um menino. Assim, tem, em si, o velho, a criança e o adulto. Penso escrever um conto sobre um homem que cria um alfabeto a partir das notas musicais; dó, ré, mi, fá, sol, lá, si; e fica louco. Penso escrever um conto só para usar a frase “silêncio de postes queimados”. Penso escrever um conto onde surgem corpos de dentro de outros corpos: o peito do pé, o pé do ouvido, as costas das mãos, a barriga grávida da perna e a boca faminta do estômago. Penso escrever um conto sobre um soldado julgado e condenado por deserção. A maneira: suicídio. Penso escrever um conto de ficção científica que demore exatos 8 minutos para ser lido. O mesmo tempo que a luz do Sol leva para chegar até a Terra. Penso escrever um conto sobre um homem que retira todas as suas falas de óperas famosas. Penso escrever um conto sobre um homem que escreve um conto sobre manuais de desajuda. E não penso em mais nada.” (Págs. 36/37).

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“Eu não percebi quando eles se aproximaram.

Eu estava assombrado por zumbis, sonhando com mortos vivos há duas semanas, quando resolvi escrever um conto sobre eles. Talvez um conto em que dois eram colocados para procriar em laboratório e se devoravam enquanto faziam sexo, as gravações fariam sucesso no mundo pornô. Mas fiquei desanimado quando lembrei que Bolaño escreveu algo parecido e eu não quero parecer um plagiador. Tento, sempre em vão, um estilo próprio, algo que possa reconhecer como meu. Que possa mostrar como meu. Estou notando agora, enquanto escrevo, que esta narrativa está com cara de Sérgio Sant´anna. Sant´anna fez muito isso. E essa autoficção toda? Sebald? Ra. O conto. Falo do conto dos zumbis. Esse conto, ele deve ser narrado em primeira pessoa. Pode ser um cara, um adolescente que viu a gravação original e espalhou. Como um vírus. Péssimo paralelo. Barato.

Cara, você tem que acreditar no que eu vi, vou te passar por e-mail. Sinistro. Nunca vi. De verdade? Fake não.

Preciso de muito mais. Mais. O que fazer para ter essa maldita voz interior. Negócio complicado. Talvez seja melhor explorar a história sem se preocupar muito com isso de estilo, de voz interior. Quem ouve voz interior é doido. Doido da. Palavrão não. Nunca gostei de quem escreve e coloca palavrão no meio. Vou parecer Marcelo Mirisola, sei lá. Acho que não é legal parecer Mirisola. Não é bom ser pop demais também. Mas o tema é pop. Só Chabon é que ainda não descobriu. O conto deve ter uma cara nova. Essa primeira pessoa parece Marcelino Freire. Terceira.

E então, sem que ele percebesse, eles se aproximaram. Dois amigos que já tinham visto o vídeo. A cara assustada. Falavam sem parar. Trabalhavam no quartel e conseguiram a gravação por lá. Muito nervosos.

Não é legal. Tá sem vida. Plágio é uma coisa muito séria. Por isso também me plagiei ao escrever esse conto.”

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“Mr. Kalashnikov – Dois Pontos Editora- 2009

Sudão

(1979)

A literatura mundial já teve cães, gatos e até defuntos como narradores. Mas provavelmente é em Mr. Kalashnikov, primeiro romance do sudanês Mohammed Ibn Baruk, que temos pela primeira vez um rifle automático falando em primeira pessoa dentro de um livro. E falando muito, quase sem parar, quase que só com vírgulas e pouquíssimos pontos. O livro começa com uma modelo russa, que posa para revistas eróticas, empunhando a arma. Depois da sessão de fotos a AK-47 vai parar no Sudão, durante o cerco à região de Darfur, onde passa pelas mãos nervosas de um janjaeweed adolescente que a trata como se fosse a primeira mulher, atravessa a fronteira do Chade e serve de instrumento de poder para um golpe de estado sanguinário em que há até canibalismo, migra para a Somália e é usado por piratas no ataque a um navio britânico. O narrador, por fim, conta como foi desarmado por uma capacete azul australiana de corpo longilíneo. Apesar do tema forte e trágico, Ibn Baruk consegue imprimir algum humor e lirismo à sua história. Para o leitor brasileiro há um curioso bônus: a epígrafe é retirada de Machado de Assis: “O cinismo é a sinceridade dos patifes”.

Trechos:

“Natasha, Natasha, Natasha, Natasha, Natasha, Natasha, faz carinha de menina má, uniforme militar, em cima do tanquinho de guerra, nisso é o que foi dar a toda poderosa União Soviética.” (Pág. 07)

“As mãos suadas, aquele suor grosso como sangue…” (Pág. 65)

“Eu soprando e assoviando, cuspindo na cara desses panacas, o circo chegou, planto flores, narizes de palhaço, pinto o mundo de molho de tomate, izvinite, izvinite, izvinite. (Pág. 75)”

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Bernardo Brayner – Escritor e Publicitário. Vive em Recife. Publicou – Exercícios de Morrer – em 2005 e atualmente escreve em sua imperdível página:

Livros que você precisa ler –

http://livrosquevoceprecisaler.wordpress.com/