Tuesday, October 12, 2010

PIETRA - 1910



    chafariz preventorio



Paquetá



Segunda-feira



Dialectos solares somam-se às notas do violino do vizinho. O estranho Sr. Cassius. Enclausurado em sua casa a genuflectir o espanto em notas que nos levam a passear pelo jardim de Vênus. Música que estanca diante do pórtico nítido da agonia com suas centelhas de notas graníticas. Paquetá, prisão que me abriga. Dilacerações nocturnas - saudades do Rio de Janeiro. Das conversas na varanda sentindo o aroma das romãzeiras.

Agora o silêncio reina, mas, ainda vibram no ar as notas do senhor Cássius que passa os dias dedilhando músicas em uma plangência que dói fundo na alma e me deixa mais triste. Mais triste por estar nesta praia, enclausurada, enquanto no Rio minhas amigas vão à confeitaria e às compras.

Nossos passos pelo quintal triturando folhas. O jardim mal-cuidado e papai recomendando que mamãe procure um jardineiro na ilha.

Lygia deve estar, neste momento, na confeitaria Colombo. Seus pais conversam e ela percorre o salão à procura de um galante rapaz.

Gestos de nobreza segurando a ponta do talher com delicadeza. Quase deixando escapar por entre os dedos. Levará muito tempo para comer sua torta. A luva de renda. A roupa que farfalha e o olhar dos pais, impacientes, à espera que ela termine a torta. À espera que seu olhar deixe de flanar pelo ambiente de sons metálicos da Confeitaria Colombo à procura daquilo que uma garota sonha: Um cavalheiro belo de olhar gentil.

Eu aqui – cobalto magnífico, maresia. Não posso negar as belezas desta ilha. É por pouco tempo - diz mamãe - só para seu pai se recuperar desta anemia e deste cansaço.

Imploro que Chronos altere a ampulheta universal e acelere estes dias para que eu possa senti-los como um sopro, um sussurro, e voltar correndo para o meu Rio de Janeiro, minhas amigas, minhas aulas, o piano, os passeios...




   foto André Rocha


Terça-feira


 
Eu, a olhar as empíreas barcas. Eu, a erguer os olhos ao alto, às nuvens em alucinada dança. Aglutinadas formam acima de mim uma clarabóia azul. E eu penso que se minhas mãos alcançassem alto, eu poderia empurrar a porta e entrar na paz dos anjos em um lugar onde a dor não mora. Viver lá no jardim eterno a beber o néctar da felicidade... Um papiro imaginário rasga-se diante dos meus olhos. Os pensamentos loucos dos meus dezessete anos que não quer as noites orgíacas das orquídeas piromaníacas. Meu ser que vacila diante da trajectória que me leva a uma forquilha que obriga a decidir para que lado seguir... Neste meditar volto a olhar o céu e os chumaços de algodão se expandem, desfazem a clarabóia, a minha possibilidade de alçar o éden. O súbito azulejar fere de luz meus olhos, tropeço na areia fria.

Uma dor profunda rasgando os tendões do meu tornozelo. Uma dor que me fez gritar e ficar lá atirada na areia. Meu grito chamou a atenção de Angélica. Ela voltou em desabalada carreira. Meu pai doente e branco como uma folha de lírio me tomou em seus braços e me levou para casa.

Ervas, ervas e meu pé enfaixado. Dor insuportável.

Mamãe trouxe-me uma sopa fumegante e fiquei a tarde toda olhando a paisagem com um livro perdido em minhas mãos sem conseguir concentrar-me.

Ter esta idade e pensar – o que é vida?

Mamãe olha-me com olhares repletos de cenhos franzidos. Com perguntas morrendo em sua garganta. As palavras quase saem, mas, fica lá como um náufrago que não suporta o furor das águas. O que deseja dizer-me?

Já quase morria o dia. Um divino silêncio precedeu à miragem. Como se anjos viessem à frente para trazer-me este instante. E a cortina bailava em sua cor suave, clara, límpida. Hora do ocaso. O horizonte de fogo lançando chamas sobre o mar, uma nova noite, um novo alento, e a cortina bailando, e o vulto de meu pai diante da casa e o outro vulto se aproxima e lhe diz:

– Boa Noite!

E as horas todas resfriam em algum lugar do Universo. Tudo pára.

Paquetá nem ao menos respira e a voz ecoa como um piano de pétalas. Uma voz de uma planície aveludada. Meus olhos perdidos entre as rendas da cortina em um vulto alto, porte de elegância britânica, um homem belo, de cabelos de ouro.

Eles conversam. Apuro os ouvidos e ouço.

Já não me arrependo do dia em que entrei na barca da Companhia Ferry, no caís Pharoux. Bendigo o instante e guardo o eco da voz. Quem é aquele homem?

Belo, não muito jovem. Olho ao redor e saio pulando em uma perna até à varanda. Posso ver um vulto que veste um costume impecável dobrar a esquina com uma sobriedade de príncipe. Meu pai abre o portão e me diz:

- Pietra, você não pode ainda sair da cama!







Quarta-feira



Amo tamarindos e os coqueiros à beira-mar em festa, como que saudando esta minh’alma nova de súbita presença envolvida em música que se chama – voz de um estranho.

Tudo ressalta belo diante dos meus olhos neste dia de azul inesquecível: o café com leite quentinho, o pão que estala em minha boca e me faz pensar que a vida é esta amplitude de sonhos. Um olhar que não sei a cor, uma voz que jamais esqueço.

O tornozelo dói. Ainda dói como se meu coração trafegasse em seus ligamentos. Agora a dor não me apavora é como se fosse parte de um ônus. Suporto a dor ante a visão de ontem. Ante a descoberta do príncipe andante.

Perscruto meu pai e quero perguntar quem é. Quem é aquela criatura que estancou diante do pequeno portão branco? Que voz é aquela? Existe, ou imaginei, após o delírio da queda.

Papai lê na varanda, um processo, com atenção absoluta. Como vai descansar se trouxe trabalho para a ilha?

Angélica se conforma em ficar trancada em casa em um dia de esplendoroso sol. Cuida-me com jeitinho materno. Pergunta-me se dói, onde dói, coloca sua boneca de louça na cama e salta ao meu redor.

Seus cachos negros, adornados de fita rosa sacodem na saliência de sua dança e não permite que eu divague na lembrança do ausente cavalheiro que ainda dobra aquela esquina, ainda caminha como um Lord, ainda cobre de mel a calçada com o rastro de sua voz. Até a música soturna do vizinho não mais me chateia, nem as pulsações das dores da queda, nem aquele incômodo mensal que surge na praia, que surge talvez do susto da queda, que surge e me deixa assim plena de dores.

Mas não foi preciso perguntar, nem interrogar quem era. Ele é ilustre. Ilustre – a palavra que papai utilizou.

O ilustre Senhor Giancarlo. Ele diz e uma rocha de gelo se aloja em meu peito.

- O ilustre senhor Giancarlo...

Continua meu pai a enumerar para minha mãe os cargos daquele que tem a voz mais bela que ouvi na minha pouca vida, e a dizer aquilo que faz ancorar uma geleira em minh’alma.

- Sabe Anita. Giancarlo está vivendo sozinho na ilha. Deixou um advogado amigo encarregado de seus negócios e está recluso, tentando se refazer da tragédia.

- Tragédia?

Perguntou mamãe, enquanto eu ansiava pela resposta mais do que ela própria.

- Sim, a esposa dele se atirou ao mar. Temia uma doença, que segundo os médicos a mataria aos poucos, e acelerou o fim.

As palavras de meu pai projectam diante dos meus olhos a cena que a seguir se dissolve como flecha coagulada...

Circunlóquio do espanto, suspiros, leques aflitos, diademas arfantes em seios suspirantes. A beleza da voz dele – Boa noite! Entra na cena que meu pai narra. A voz dele arquitectura sonora da beleza.

Recolho-me ao quarto e procuro entre os pontos do bordado e as notas áridas do vizinho Cássius uma explicação para este solar crepitar da alma.




 
 
Quinta-feira

Gosto de divagar em cenas que eu nem sei se serão reais, um dia. Mas, em meu coração e alma, naquele instante elas são nítidas, cristalinas e, portanto existem. Em meu coração existem.

Eu estava vestida de um vestido da cor da areia de Paquetá. Eu tinha os negros cabelos caídos em ondas pelo meu ombro. Eu erguia o meu vestido até os joelhos e caminhava devagar pela dor da queda da semana anterior. Quando abri a porta da sala o tempo parou diante da imagem. Ali, olhando uma escultura de um anjo barroco estava o jovem Giancarlo. Soltei as bordas do vestido e me pus a contemplar o corpo dele dos pés à cabeça. Ele vestia branco. Os cabelos estavam crescidos como se fosse um desleixo. Como se ele não se importasse mais com a aparência. Sem saber que aquele ar descuidado dava a ele uma ternura selvagem.

De relance percebi que ele não fazia a barba há dias e quando ele virou-se a primeira coisa que vi foram suas olheiras profundas. Os olhos eram de um verde violento, um mar revolto, uma tempestade. Fiquei parada diante dele com a pele banhada de sol, os cabelos soltos, o vestido molhado de mar e sem conseguir articular uma palavra.

- Bom dia Senhorita...

- Pietra.

- Senhorita Pietra. Como estás? Sou Giancarlo, amigo de seu pai.

Sorri sem saber o que dizer. Desejando desaparecer dentro dos meus trajes e ressurgir em noite de gala com os cabelos adornados e a pele cuidada e então ele veria. Sim, ele veria que eu era bem mais que uma garotinha correndo em uma praia. Murmurei alguma coisa e saí correndo para a cozinha, esquecida da dor. Odiei aquele primeiro encontro. Queria que o impacto da minha visão fizesse com que ele descobrisse um outro sonho em mim. Uma outra mulher para amar. E ele viu apenas uma garotinha que brinca na praia, de cabelos soltos, mal-cuidado, uma menina com nome de Pedra.

No almoço ele se portou gentil, respeitoso diante de meus pais. Por um segundo pensei sentir o peso de um olhar em mim, enrubesci, mas acho que sou uma menina que constrói sonhos do nada.






Sexta-feira


Minha mãe disse algo ontem sobre esses amores que terminam como o dele. Que nada pode substituir esta perda, pois ele a perdeu no auge do amor e que ninguém poderá convencê-lo de que amar de novo vai valer a pena. Mamãe começou a divagar sobre Shakespeare e sua genialidade em matar tanto Romeu quanto Julieta, eu não sei. Mas, não foi Shakespeare quem matou Romeu ou Julieta, ele apenas escreveu uma lenda. Ele contou uma história. E na verdade não foi Shakespeare quem matou ninguém. Ele era um poeta na alma e ele foi escrevendo o que as pessoas lhe contaram, não criou a história, apenas verteu ao papel.

A sua poesia foi que venceu os séculos. Não seria a mesma coisa se um tolo resolvesse escrever sobre os apaixonados mais famosos do mundo. Ou se outro escrevesse sobre o príncipe da Dinamarca...

Penso que a arte é este mistério onde um homem como Shakespeare é capaz de transformar em inefável beleza as lendas do mundo. As coisas simples. Bem como Michelangelo eternizar o belo com suas mãos sagradas.

Penso em coisas amenas, e penso que não devo dizer nem mesmo a Lygia que meu coração foi arrebatado de amor por um homem mais velho, um príncipe inacessível. Penso que as coisas não são tão simples como em meu mundo imaginário.

Que existe um véu de aço entre o homem belo e as criaturas. Que pode estar certa minha mãe sobre esta dor que está aninhada em seu coração.

Foi com estes acordes profundos, rascantes como a música do meu vizinho Cássius que sai a caminhar pela ilha a me despedir de suas pedras e palmeiras e até mesmo das ondas do mar.

E lá estava eu apreciando a morte do sol. Vendo o fim do dia quando alguém tocou em meu ombro e eu me voltei. Cascatas de sons, noturnos extraviados de sinfonias de amor.

Era Giancarlo, o triste.

- Buonacera, senhorita Pietra...

- Como está o senhor?

- Bebendo a brisa da tarde. Gosto dos crepúsculos. É sempre neste momento que saio para passear. Muito bela sua família, Senhorita Pietra...

- Gracias, senhor Giancarlo.

- Digo isto embriagado de uma nostalgia sem fim...

- Aceite minhas condolências, senhor, meu pai contou-me que perdeu sua esposa...

- Poderíamos ter tido uma família assim como a tua. Mas, Henriqueta não podia ter filhos. Com o tempo percebi que nossa felicidade não seria abalada por isto. Quando começamos a divagar sobre a possibilidade de adotar uma criança, Henriqueta recebeu a noticia de que sua saúde estava muito frágil...

- Sinto muito...

- Ela precipitou-se menina Pietra...

- Por favor, não me chame de menina...

Ele colocou seus olhos de mar em mim e eu soube que entendeu todo o vendaval. A valsa dos sentimentos rodopiando pela minha pele, meu coração, minh’alma.

- Certamente, senhorita...

- É que já tenho dezessete anos.

- Sim, eu me lembro de quando tinha dezessete.

- Também não gosto de zombarias...

O meu sangue fervia. Estava até mesmo desejando que ele me decepcionasse para que eu pudesse apagar tudo aquilo, quebrar o encanto.

Estava começando a ficar irritada, quando ele pousou, novamente, a mão nos meus ombros e disse de forma carinhosa.

- Não estou zombando de ti. Só estou tentando dizer que não há pressa em crescer, Pietra... O mundo é cruel demais para quem se torna homem, mulher, adulto, enfim... A felicidade mora neste tempo, não deixe de vivê-la. O tempo vai varrer isto de ti, e eu queria que você fosse feliz por mais tempo e não quisesse pular a linha dos anos, é só isso...

Ele pousou delicadamente a mão em meu rosto e me acariciou.

O calor dele ficou impregnado em mim.

Ele sorriu e seguiu em silêncio pela praia.

Fiquei vertida em líquido desejo diante do mar e do dia que morria e dos olhos dele e da palma que valsou em minha pele e de uma saudade que jamais eu deixaria de sentir enquanto fosse Pietra e enquanto vivesse ele estaria ali diante do mar a me sussurrar que a vida é bela aos dezessete, e jamais esqueci.


BÁRBARA LIA
Capítulo: Pietra, 1910 - do livro SOLIDÃO CALCINADA - publicado pela Imprensa Oficial do Paraná

As fotos foram gentilmente autorizadas por Jacques Azicoff
responsável pelo Projeto Pró-Memória da Ilha de Paquetá Acervo Histórico e Iconográfico:


a foto do barco solitário é de André Rocha