Tuesday, October 05, 2010

Solidão Calcinada - Bárbara Lia




Bárbara abre o livro ao acaso e começa a ler em voz alta. As cortinas embaladas pelo vento beijam a borda do livro e as mãos de Bárbara. Ela se esquiva um pouco para não olhar a árvore calcinada no canto do quintal. Sempre teve uma sensação sinistra ao olhar a árvore morta de braços abertos como um soldado ferido implorando um socorro que não chega. Pensou se devia ou não devia derrubar a árvore e desconcentrou-se.

Lembrava das recomendações da avó e mantinha a promessa de deixar a árvore calcinada e morta no quintal. Ela destoava de toda a beleza do jardim simples: A grama sempre aparada e as hortênsias ladeando a parte interna do muro. Um canteiro de amores-perfeitos ao centro de cada uma das alas do jardim que era separado por uma calçada branca, conduzindo à casa de beleza simples. Janelas e telhado da cor azul real, paredes brancas, um pórtico pequeno na entrada. Havia harmonia em tudo. Apenas a árvore ali se ressentia negra de desencanto. Ela pensava em como quebrar a promessa que havia feito à avó e que a avó Esperança havia feito à sua mãe Serena - uma menina que morreu aos vinte anos. A mãe que ela nunca conhecera. A mãe havia amado alguém que inscrevera com um canivete afiado um coração na árvore. Um coração rústico que terminava em um desenho em S.

(Mondrian - 1911)
Bárbara pensou em como quem ama se torna bruxo, mago, vidente. Não muito depois do coração inscrito ali Serena sangrou realmente. Rasgou os pulsos em uma cela. Morreu menina, em 1.970. Sempre que Bárbara olhava o coração terminando em S sabia que era um coração sangrando lágrima. Talvez aquela árvore plantada, estagnada, ficasse como uma pista. Ou um desejo de que um dia ela soubesse quem foi o homem que amara sua mãe e a presenteara com um coração. Um coração fendido em um tronco negro.
Solidão Calcinada - SEEC /PR - Imprensa Oficial (2008)