Sunday, January 09, 2011

Casé Lontra Marques

Reparto com os leitores do chá esta bela mensagem do Casé:

Onde o silêncio
Leio sempre com atento prazer o que escreve. Seus textos — sinuosamente elaborados, sinfonicamente concisos — fundam, com singular potência, territórios onde o silêncio propicia uma outra forma de sobrevivência. - Casé Lontra Marques.








A

A solidão até então aturdida tateia a luz incerta do dia. Não direi que há conforto nesse instante já distante; prefiro pensar na cicatriz próxima à escrita - aquela que não quero, com intrincado temor, dedilhar.

B

(Ainda não recebemos notícias da última colheita; não explicarei porque não estamos preocupados. Reafirmamos a vontade de palavra, recordando as mortalhas que mastigamos quando selamos a língua da qual não restará qualquer sinal.)

                                                             C

Ainda ergo os olhos do sono, mesmo quando recuso o amparo - improvável - do corredor. Depois amanheço prorrogando o café entre os lábios gretados. (Assim que o silêncio não puder mais recuar, o calor envolverá as paredes que evitarei recuperar.)

(IV)

Porque prevejo o seu regresso,
observo
o intervalo entre os temporais

(sobre
o solo do hálito)

Porque pressinto a sua potência,
grafo
na manhã - em meio ao centeio -

uma cifra híbrida

(sobre
um solo cada

vez

mais ácido)

CASÉ LONTRA MARQUES
SABER O SOL DO ESQUECIMENTO
Aves de àgua - Coleção Área Clara / 2010

**

O silêncio que Casé citou em uma mensagem que recebi com carinho. O silêncio onde teço toda a minha poesia, toda minha invenção em enredos que me fazem migrar para a prosa. O silêncio, este que anseio loucamente. Ao pressentir que escapava de mim este silêncio, compus a ode ao silêncio que está no livro - Coreografia do caos. Ando em busca deste silêncio para germinar as ideias várias que pululam em meu coração. Cada ano que nasce traz uma infinidade de sementes em um cesto que algum anjo sapeca deixa na janela do meu quarto. Ano passado foi em uma destas horas mornas desta cidade morta - que fica morta a cada janeiro - que iniciei o livro que tem como cenário o - grande mar redondo - Paranaguá. E neste início de ano um anjo erótico serpenteou poesia na minha pele e tudo engendra líricos manifestos em louvor ao corpo e ao encontro dos corpos.
O silêncio que ando laçando nas manhãs, como uma amazona ensandecida, guardando-o entre as paredes desta casa para poder beber esta poesia profunda que o Casé enviou. Um tempo para ler o sol do esquecimento, a densidade do céu. Uma alegria esta partilha com os poetas do mundo.