Wednesday, February 23, 2011

Antologia

De cada livro extraí uma poesia - Antologia Pessoal:


BEM-TE-VI

Ramagem arranha janela.
Sonho:Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:
A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol
na mesma paisagem.

O SORRISO DE LEONARDO / 2004

 
 
 
KAMIKASES

Doze kamikazes
arrastam a delicada açucena.

Doze kamikazes.
As lágrimas descem
feito fontes.

Nenhuma música
de anjos sonoros,
nenhuma.

Nas nuvens que passeiam,
exausto de tédio, atira longe
o grão da maldade – o dragão da guerra.

O SAL DAS ROSAS / 2007
Lumme Editor (SP)

 
 
 
 
 
LAYLA

calçadas molhadas
- uma lâmpada grávida
estremecida de sol
pequeno -
a lembrar
que ainda é verde o trigo.
florirá
amanhã
em sol granulado,
farpas de doçura,
sempre.

A ÚLTIMA CHUVA / 2007
Mulheres Emergentes (MG)

 
 


COLEÇÃO 21 GRAMAS (artesanal)
 
 
 
 
PRIMAVERA PARA BEETHOVEN
 
 
Também os bosques são sinfonias
no silêncio da bela arquitetura
teias de aranhas são partituras
por mais casta que seja a analogia

Em nítida alegria toda tessitura
de um concerto pleno de alegorias
traçando entre o verde, harmonias
asas dos pássaros voam alturas

(entre galhos , o vento ouvem
e um exército de aves se levanta
rasgando em asas o ar fuligem)

Uma paisagem etérea-sacrossanta.
Primavera para o triste Beethoven
que fulge entre o verde e - livre - canta.

ADAMARE / 2010
 
 
 
CHÁ PARA AS BORBOLETAS



Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

CHÁ PARA AS BORBOLETAS / 2010
capa - Ane Fiúza

 
 


 
O POETA MORRERÁ!




O poeta morrerá
Às dezoito horas
De um dia fora do tempo

-sem aviso-

O poeta morrerá
Em cada manhã de caos
De pão saturado de suor
De ruas saturadas de rancor

O poeta morrerá
Meio ao comercial
Da loja de colchões

O poeta morrerá -
Uma Pietá a amparar
Suas asas quebradas -
Na penumbra dos umbrais

O poeta morreu
   Poe    Orpheu
(e corvos tão iguais
nos beirais)

CIGARRAS NO APOCALIPSE / 2010
 
capa - Rogério Teruz


 
 
Uma só rosa no meio do inferno é o paraíso. Eduardo Lourenço escreveu isto, um poeta lusitano. Uma só rosa! Rosa sub-rosa extra-rosa proto-rosa magma-rosa ex-rosa. O furor daquela mulher desabrochou em uma rosa UNA. Os pelos dela nuvem lassa entre as coxas brancas - nuvem caramelo - pelos perfumados qual o coração. Afundava as narinas entre os pequenos lábios abraçado às suas coxas e cheirava como a um alucinógeno - o céu o céu o céu. Afastava a cortina de fogo brando e violava sua flor acesa. O coração trôpego querendo alcançar o céu da boca... Estes são os dias em que as aves se debruçam para olhar uma cena e morrem de infarto. Estouram na calçada, pássaros caídos do nada. Mortos após contemplar a orgia amorosa e plena.


COREOGRAFIA DO CAOS / 2010 (publicado no site Germina)





NEBULOSAS NO QUINTAL



Cá estamos os dois
a lavar os panos de dentro
como as antigas lavadeiras.

Cá estamos os dois
a clarear a alma
para sanar os corpos.

Cá estamos os dois
com as almas à relva
a quarar toda mágoa.

A vasilha preparada:
bacia de alumínio
e água de anil.

E lá vem Deus
a nos espremer
entre os dedos Seus.

A torcer-nos retirando
as lembranças tortas
as tentativas mortas.

Duas almas claras
lavadas no anil
sem manchas
sem memória.

Deus nos assenta
com cuidado
no cesto de vime.

Deus nos acomoda
como duas nebulosas
no quintal de sua casa.

NEBULOSAS NO QUINTAL / 2010






Lopes Chaves, 546



Uma luz apagou

Na ribalta do mundo

Quando cerrou as portas

Da vida daquele

Que Anita amava

Nunca mais se ouviu

Outra vez

O piano parisiense

- Henri Herz –

Mário a dedilhar

Teclas e palavras

No n° 546


Da Lopes Chaves


NOON / 2010

capa - foto de Mel Bandeira - Zakhintos ( Grécia )


**




Passei a vida inteira comendo sonhos.

Comendo sonhos como os homens das cavernas comiam carne crua.

Passei a vida inteira comendo possibilidades abortadas.

Recolhi a flor no ventre escuro do caule.

Acendi estrelas com incenso em brasa.

Passei uma vida de encantar o tolo e encantar-me pelo nada...

Só tua carne me alimenta.

Só tua possibilidade é o parto de uma nebulosa de gerânios...

Eu, a parteira, recebendo mil flores entre os dedos...

Só tu acendes estrelas com teus dedos de carne.

NYX NUA / 2010











DANS L'AIR

Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.

O RASURADO AZUL DE PARIS/2010







foto de Kátia Torres





NIÓBIDE BLÉSSE





À sombra da noite clara
Latona no meu encalço
Espectros da última primavera




O Rio Loire, um duplo do Aqueloou
Meu Monte Sípilo é Ville-Èvrard
Onde endureço carne e alma




Delírios brancos, visões:
Escunas leves com velas de vidro
E tombadilho de pétalas

Estilhaçam na roupa cinza
Ferem-me, beijam-me – qual o amor




Meu ódio espelha o trágico
Anseio que o mundo petrifique
Qual Zeus petrificou Tebas




Sonho com o anjo da restauração
Acordo. Nada se restaura
Tudo igual:




Cama dura de ferro
Urinol fétido, trincado
Três tâmaras secas
Dois gatos no cio a quebrar
O silêncio arredio da madrugada




Os loucos acordam com vislumbres de luz
- Átimo de lucidez.
Acenam lenços de seda à Latona fria
Choram um beija-flor e já no corredor
Vestem o olhar vazio.




Andam autômatos como rios mortos
Deságuam cinzas
No jardim de Ville-Èvrard.

PARA CAMILLE, COM UMA FLOR DE PEDRA / 2010









***
Primeira percepção:


A noite é perfumada






A menina Magnólia vivia como se fosse alma.
Hoje a realidade a prega no chão bruto, piso marrom manchado de vinho, janela com cortina bege e vista para o bairro.
Vista para a cidade cinza.
Magnólia sempre foi alma.
Sempre usou o corpo como um títere.
Manejava acima o enredo seu: escolhia a música e a poesia.
O corpo era instrumento amorfo.
Vivia com a alma.
Percepções.
A primeira percepção da menina – A noite é perfumada.
Respirava a noite.
Calçada estreita de cimento cinza e lateral de tijolos díspares como dentes encavalados.
A fila de tijolos ocres cercando a calçada cinza quase branca e acima dela mais brancas ainda as pequeninas flores e mais acima e mais brancas quiçá, as estrelas.
O perfume era imã para a felicidade.
De dentro da casa a luz não era irritante como as deste século.
Ligeiramente avermelhada como o brilho das sementes de romãs.
No rádio uma música de seresta, ou uma viola sertaneja.
A noite é perfumada;
Nunca soube se de mínimas flores ou de estrelas aquele perfume.
Mas guardou a imagem intacta na tela:
A menina magrela com vestido de babados de tecido anarruga branco.
Cabelos curtos, uma franja bonita na testa sábia.
Saltitando entre uma chuva de pequenas pétalas em uma estreita calçada.


PERCEPÇÕES
Prosa Poética








ABSTRATA





O caminho abstrato
leva
às verdadeiras
paisagens

Há quem vá à Roma,
sem ver Roma
Há quem vá ao amor
sem enxergar o amor

Há quem venha a mim
sem ver a mulher inteira
e codificam os gestos
e atiram ao vento meu nome

Nunca me viram no real
espelho
além da carne dos olhos


Eu não tenho a chave
que abre
as portas da minha alma.


RÉQUIEM / 2010
capa - fotografia de Isaias Faria











 
 
 


 
ROSA CHÁ AZUL ANIL
 
 
Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.
 
Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:
 
Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.

Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo -
de figueira desconhecida.

Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.

Céu rosáceo de Dali
desce ao chão e incendeia
o futuro lilás:

rosa chá + azul anil

Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.

E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.

- meu azul demorado!

À SOMBRA DE UM RIO / 2010

capa - desenho de Felipe Stefani