Sunday, July 24, 2011

Percepções (diário de Magnólia)

Primeira percepção

A noite é perfumada





A menina Magnólia vivia como se fosse alma.


Hoje a realidade a prega no chão bruto, piso marrom manchado de vinho, janela com cortina bege e vista para o bairro.

Vista para a cidade cinza.

Magnólia sempre foi alma.

Sempre usou o corpo como um títere.

Manejava acima o enredo seu: escolhia a música e a poesia.

O corpo era instrumento amorfo.

Vivia com a alma.

Percepções.

A primeira percepção da menina – A noite é perfumada.

Respirava a noite.

Calçada estreita de cimento cinza e lateral de tijolos díspares como dentes encavalados.

A fila de tijolos ocres cercando a calçada cinza quase branca e acima dela mais brancas ainda as pequeninas flores e mais acima e mais brancas quiçá, as estrelas.

O perfume era imã para a felicidade.

De dentro da casa a luz não era irritante como as deste século.

Ligeiramente avermelhada como o brilho das sementes de romãs.

No rádio uma música de seresta, ou uma viola sertaneja.

A noite é perfumada;

Nunca soube se de mínimas flores ou de estrelas aquele perfume.

Mas guardou a imagem intacta na tela:

A menina magrela com vestido de babados de tecido anarruga branco.

Cabelos curtos, uma franja bonita na testa sábia.

Saltitando entre uma chuva de pequenas pétalas em uma estreita calçada.


Bárbara Lia (Percepções - 21 gramas/2010)

desenho - Ane Fiuza