Friday, February 10, 2012

Valentine's Day III

fragatas no Tejo




Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis

 
 
Usando a liberdade poética, pensei que - ao morrer Fernando Pessoa - com ele morreram todos seus heterônimos, criei alguns versos e um diálogo dos personagens dos poemas com o seu criador, em uma despedida, um adeus. Neste soneto que segue, Neera se despede de Ricardo Reis, emprestei o título do livro de Saramago para o poema... Um tributo aos amores inventados, alguns mais reais que os reais.
 
 
 
 
O ano da morte de Ricardo Reis



Não cante o desprezo aos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto – Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto – Beijos

Sou toda verão na alcova, acesa, à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto – Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

 
Bárbara Lia
in Fotogramas em flor de algodão (livro em construção)