Monday, March 19, 2012

AC / DC

Antes do Chico / Depois do Chico

Sampa 18 de março

O carro entra pelo portão de acesso ao espaço HSBC e eu vejo: O homem magro, de camiseta grafite e sorriso no rosto, apressado, iluminado. 45 segundos foi o tempo em que, em minha vida, convivi com o mito. Aquele mesmo cantor que abriu os olhos da menina do interior com as letras a imprimir um tempo. A adolescência ouvindo Roda-Viva e Apesar de Você. Enquanto naquela cidade pequena os garotos subiam ao palco do Cine Vera no programa de calouros para cantar as canções da Jovem Guarda, as canções de Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e outros. Eu esticava o olhar para as páginas das revistas e aumentava o volume do rádio quando ouvia outros nomes,  outros caras. Era Luz maior. Luz! Quero Luz! Os nossos ícones despontavam e eu era a menina estranha e diferente que se alimentava de Bob Dylan, ecos de Woodstock, Chico Buarque e Caetano Veloso. Não tinha com quem dividir os meus ídolos, somente quando passei no vestibular e fui viver em outra cidade, encontrei outras pessoas, outras cabeças, outros meninos ávidos como eu.  Lembro o refrão naquele dia de luz diferente, cantando Gilberto Gil - No Woman Cry...

Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rondando ao redor...

Amigos presos
Amigos sumindo assim
Prá nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar prá trás...

Não, não chore mais
Não, não chore mais
Oh! Oh!
Não, não chore mais
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não, não chore mais

No tempo em que o ziper da tirania foi apodrecendo e as almas saíram do calabouço, aquelas que traziam a carne colada ao corpo ainda, as asas dos que não morreram se abrindo, suturadas (ou não) e a Anistia (ainda que tardia) comemorada, por nós, em um churrasco à beira de um lago, com violão e as canções.
Ah! As canções.
Então, sei que o poeta-mor entendeu as palavras tortas, múrmurio do avesso, de alguém que tenta dizer em trinta segundos - Obrigada! Como explicar em uma frase a importância de sua obra em minha vida. Guardar a fotografia como quem guarda um momento íntimo. Ele que é avesso a estas coisas todas. Não vou mostrá-lo fora do palco. Valeu, pela brevidade e pelo encanto. Pelo canto e pelo sorriso. Pela partilha da beleza na noite deste março... e uma poeta volta a ser menina.
Minha irmã caçula esteve aqui no Natal e disse - Teu presente é só em março.
O presente era um ingresso para o mergulho na Poesia, era para estar em um Show de Chico Buarque.
A Fá, minha irmã, disse que aprendeu a gostar de MPB por minha causa, e ela se sente muito feliz com isto. Por ter convivido com alguém em um recanto de um País que expande a alma para descobrir a beleza que tem um nome no topo: Chico.  Um compositor. Um cantor. Um escritor. Um Poeta (sempre). Um homem. Nosso expoente maior. Unanimidade sempre.
A platéia tem meninos com seus pais, universitários, os velhinhos e seus cabelos brancos. Não, eu não vou chamar esses caras de idosos. Somos velhos, eu estou ficando velha. E amo esta palavra - Velho.
Os músicos que acompanham Chico Buarque são sensacionais, a iluminação perfeita e no palco os painéis davam o toque final, uma alegoria brasileira, deste brasileiro que a gente aprendeu a amar para sempre...
Uma delícia Chico e Wilson das Neves cantando -- Tereza da praia. Bia Paes Leme em - Se eu soubesse. E a surpresa maior, ouvir aquelas canções. Aquelas que embalaram a minha vida. Todo Sentimento e Choro Bandido entre tantas. As inumeráveis noites, o desabrochar da vida, ter alguém que sabe cantar a real essência de uma mulher. E pra terminar, aquele vôo para bem longe com os acordes belíssimos de Futuros Amantes...



Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização


Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você







painel de Cândido Portinari


Chico Buarque e Wilson das Neves - Maravilha!



Chico Buarque de Hollanda



(não tirei muitas fotografias, pra não distrair minha alma, melhor nadar neste som - Valeu, Chico!)