Thursday, April 26, 2012

Parisbiru


Peabiru na Primavera - Foto de Adelaide Ganassin


Peabiru é o meu refúgio mágico. Minha Pasárgada. Éden antigo. A felicidade andava colada ao meu ombro direito quando eu vivia ali. Eu vivi ali dos cinco aos dezesseis anos. Foi ali que cursei todo meu ensino básico. Quando eu fui para o Ensino Médio (atual) meu pai decretou que minha inteligência ia ser desperdiçada se eu cursasse a Escola Normal. Acho que meu pai desviou meu destino que era para ser professora desde sempre e escritora há muito. Tenho uma parcela de culpa pelas minhas exageradas notas em Matemática. No último ano do Ginásio eu tirei dez em três bimestres e no último, como eu já havia mesmo passado de ano, eu tirei 9,5. No ano que o Brasil se sagrou Tri-Campeão no México, comecei a estudar o Científico na vizinha cidade de Campo Mourão. De ônibus de linha, com minha irmã Tere, Solange a filha do Prefeito, Delcimar que era filha do dono do cartório, a Eugênia, uma pessoa de uma candura imensa que eu nunca mais vi. Meu pai era um sonhador que vivia mergulhado em livros e só saia para medir terras (ele era agrimensor) quando o dinheiro estava acabando, naquele ano ele foi à luta para possibillitar que duas de suas filhas viajassem todos os dias para concluir o curso. No final do segundo ano ficou mais prático ir viver em Campo Mourão, onde os filhos foram em busca de trabalho, inclusive eu, aos dezesseis anos. Aos dezenove anos eu me formei em Estudos Sociais. Havia deixado para trás aquele reino encantado, que se chama Peabiru. Um destes lugares para onde as pessoas sempre voltam, onde todos tem histórias, memórias, ligações. Uma cidade que para mim sempre foi bela, apesar da pobreza, apesar da infância de menina com sequelas de poliomielite, apesar da ausência de coisas que as crianças tem hoje em dia. Havia a montanha de serragem de uma laminadora onde a gente descia como quem esquia na neve. Haviam as beneficiadoras de café, e nos tempos de total falta de grana, escolhíamos café, os filhos todos ao redor de uma mesa imensa. Havia o Cine Vera e filmes todos os domingos, pois meu irmão mais velho era o Alfredo da nossa cidade... Qual no filme Cinema Paradiso, ele era o moço que projetava os filmes. A primeira vez que minha irmã me tomou pela mão e mostrou o menino bonito, vestido de verde, além de  uma cerca verde, em uma cena que lembra - Grandes Esperanças. Aquele filme de poesia verde com Ethan Hawke. O mistério de uma infância só mesmo os anjos entendem. A poesia Chá para borboletas que evoca o quintal da vizinha. O Tejo que nunca passou pela minha aldeia, na tarde em que adentrei um riacho lindo, de água rasa, coberto por galhos imensos de uma árvore exótica. O medo das vacas na chácara do leiteiro. A chegada do caminhão de mudança naquela casa pequena que era a última de uma rua que ficava de frente para a rodovia e aquela resposta do meu irmão protetor, quando eu apontei a sequência de casas lá no alto e perguntei...
- O que tem lá?
E ele respondeu sem titubear...
- A fazenda Santa Rita.
Eu tinha onze anos e via aquelas senhoras de rostos pintados que atravessavam a cidade em charretes como se a gente ainda vivesse em um filme de faroeste. Elas eram as prostitutas e viviam naquele aglormerado de casas, que por um tempo eu acreditei piamente que era a Fazenda Santa Rita. A cidade com seus costumes, a vida rígida.
Bateu este banzo, este texto que alguém pode até dizer - piegas - mas, encontrei toda gente neste tal de Facebook; Na comunidade com o nome da cidade, que alguém comparou com Paris, preciso saber quem para dar o devido crédito. No final, todos os que passaram a infância e adolescência lá sabem que lá é uma cidade Luz, nossa Meca, nosso lugar... Acho que vou retirar da gaveta aquele livro de memórias e retomar o traçado dos momentos de ouro, a risada do pai ecoando pela sala, o barulho da máquina de costura da mãe uma canção de beleza, meu irmão imitando o Elvis em um topete, as minhas irmãs enfrentando pai e avó para usar uma mini-saia e as estrelas cadentes rasgando as noites silentes.