Wednesday, November 07, 2012

Mia Couto segue encantado e encantando



Parece que foi ontem, Mia Couto. Todo encanto de Maputo que ficou flanando dentro. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra foi o primeiro livro que li, depois de ler matérias e matérias na Internet. Depois de ler poemas, biografia. Em 2006 encontrei a escritora Helena Sut em um café. Ela voltava de Portugal e estendeu aquele livro azulado com um pégasus branco na capa: Raiz de Orvalho e outros poemas, da editora Caminho. Um presente pra mim, de Portugal. Traçou alguns paralelos entre nossas poesias. Fiquei me sentindo estranha, sempre fico estranha quando alguém me eleva ao lado dos meus mitos. Ainda nem acredito que sou poeta, foi outro dia, foi quando ele lançava Um rio chamado tempo... Foi neste tempo de primavera e anseio que atravessei a cidade para ir atrás da primeira possibilidade de publicar um livro. Toda vez que ele vem ao Brasil eu penso: Não é desta vez, ainda. Não posso ir até lá. 
Amanhã Mia Couto está aqui. Na minha cidade, convidado do Marcelo de Almeida em seu projeto - Conversa entre amigos - que é sempre nas Livrarias Curitiba. O encontro com o Mia foi transferido para o Teatro Paulo Autran, no Shopping Novo Batel, amanhã 19:30. Estava aqui contando as horas para ver este escritor fabuloso, este poeta moçambicano e apareceu um imprevisto. Família. Se meus filhos e neto me chamam, isto é mais que ver o Mia Couto. Não se abandona o céu e eles são meu céu...
Um dia desejei aprender com Mia Couto como "estrondar o encanto". Gosto de ler autores que te atiram meio a ondas de beleza e com elas te elevam súbito enquanto você lê um livro. Estas guinadas inesperadas. "Encantado silêncio das areias de Maputo" foi recentemente publicado na Revista Literatas, de Maputo... Entrou no meu livro Noir(2006)... Sempre escrevo aos que admiro, ou sobre eles. Algum dia eles entram em meus poemas. Mia entrou, sua imaginada figura pra sempre caminhando por uma branca praia, combinando com a luz de um dia bonito. Os escritores levam pras suas vidas o tom de seus livros. Não dá pra imaginar Alan Poe nesta luz que cega os olhos. Quando penso em Alan Poe tem sempre o lúgubre ao redor. Uma casa escura, um silêncio sinistro e é claro - corvos. Quando penso em Borges eu vejo escadarias, labirintos, bibliotecas, alfabetos vários. Vejo um lugar tranquilo também, alamedas, seus passos calmos ao lado de Estela Canto. Esta luz de Mia que o atira em seu próprio lugar, solar, branco, marinho... Tem a ver com sua vida de biólogo, com sua escrita perfeita que encanta, com a calma que ele transmite. Então, ele vai seguir encantado pra mim. Não importa. Algum dia em outro lugar em outro palco em outro espaço em uma noite ou dia, quiçá eu possa me aproximar com um livro, tímida como sempre fico diante dos gigantes, tentando pedir pra que ele assine e dizendo meu nome e guardando como relíquia o livro e as palavras. 
O que importa é seguir a traduzir o silêncio, a ver-se para não macular os livros com a falta de humanidade. Só aquele que se vê dentro pode inserir a humanidade naquilo que cria. E a humanidade faz muita falta hoje em dia. Seja bem-vindo à Curitiba, Mia. Seja acolhido com a força de um lugar que lê sua obra com ternura, que se encanta e respira fundo e pensa como pensei enquanto te lia: Que coisa mais linda...


(Escre)ver-me


nunca escrevi

sou 
apenas um tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

Fevereiro 1985

Mia Couto
Raiz do Orvalho e outros poemas
p. 60
Ed. Caminho



A morte é um silêncio suspenso
e o sol um silêncio vermelho
Nuvens em seu passeio
diante da janela do apartamento
Uma sinfonia em tons vários
a gritar – Silêncio!
Silencio.
Branca como estrelas e algas
passeio alvas areias de Maputo
olhando ao redor 
em busca de Mia Couto
ansiando que ele me ensine 
a estrondar o encanto

Bárbara Lia
(fragmento da poesia -  Encantado Silêncio das Areias de Maputo - Noir (2006) - poema reescrito)