Thursday, March 07, 2013

O Verão das Musas #8 - Emily Dickinson

Imagem - Penelope Dullaghan 




Se eu não estiver mais viva
Quando vierem os passarinhos
Dá ao de gravata carmesim
Uma migalha por mim

E se eu não te agradecer
Imersa num sono bendito
Saiba que o tento fazer
Com meu lábio de Granito.

Emily Dickinson





Perdi a conta de quantos poetas li em minha vida. O mundo está pleno de Beleza, pena que muitos não beberão jamais desta fonte incrível e maravilhosa chamada - Poesia. Entre tantos que deixaram por segundos a minha respiração suspensa. Entre tantos que colocaram uma pedra de gelo em minhas veias ou fogo em meu coração, ela ressalta. Mulher voluntariosa de Amherst. Por algum tempo dedilhei poesias, biografia, entrelinhas. Desejo de penetrar uma alma que consegue imprimir a Poesia com tanta perfeição. 

Fragmentos do livro Nunca lhe apareci de branco – Judite Farr (ed. Rocco):

“Sou pequena como um passarinho… Meu cabelo é arisco como a semente da castanheira e meus olhos são como o xerez na taça deixada pelo conviva. Será que isso bastaria?”

"Eu gostaria de poder usar um manto e uma coroa, pois “tenho para mim anseios imortais” - foi o que a Rainha Cleópatra disse depois da morte de Marco Antônio. O senhor gosta de Shakespeare? Considero Shakespeare o único livro necessário."


"Quando era menina me proibiam de ir ao bosque, havia cobra, diziam. E eu poderia colher uma flor venenosa, ou que um espectro do bosque ia raptar-me. Diziam coisas e eu olhava de longe como um anjo montado em um cavalo assustadiço." 


"Parece algum aparelho de tortura sobre o qual Alexandre Dumas escreveria... Suponho que se amarre o corpo para que a alma não voe. Já observei os retratos de outras pessoas. A vida foge deles imediatamente. Nesse aparelho vou parecer morta, como a imagem de uma pessoa sem cérebro. O que é importante é ver o semblante da Alma, não os joelhos do Corpo. Foi bobagem minha vir. Mas, por favor, diga-me como posar. Não quero ser grosseira."


Link para - Emily Dickinson Museum - The Homestead and The Evergreens - em Amherst, Massachusetts. The Homestead, casa onde Emily Dickinson nasceu e viveu e The Evergreens, casa onde viveu seu irmão e sua cunhada Susan.


"Remando no Éden" é um verso de Emily, e é assim que me sinto quando leio seus poemas... E foi este o título do poema para ela, no meu livro - A FLOR DENTRO DA ÁRVORE:





“Remando no Éden”
Bárbara Lia



Um olho de Emily
É Deus
O outro é Fera
Um olho é Eva
O outro é Lilith
No branco rosto
Lábio granito
Do branco vestido
Vaza uma luz que emana
E entontece
Nada a fazer
Depois de remar no céu
Nada mais a fazer
Quando se bebeu
Versos estrelas:
- Auroras gestadas
Carta de vôo de pássaros
Palavras de arcanjos
O ocaso em uma copa
O silêncio do oceano laminado -
O tosco me agride
Tudo o que é rude
Um passo atrás
A cada farpa
A cada sílaba Bárbara                                                 
Sibila frase agulha fina
- Avesso de Sibila –
Sífilis purulenta
Na pele da poesia
– Letargia –
Um passo atrás
Um véu
Dois véus
Uma estrada
Um muro
Um jardim
Uma porta
Pétrea e escura
Uma cama
Uma escrivaninha
Um quarto branco
Arco íris na retina
Uma luz difusa
Uma musa?

Emily...
Ninguém mais.


A flor dentro da árvore / 2011