Sunday, August 18, 2013

"Saber não ser é raro"


Canto VI

41

Quem é que, com o belo sol da tarde,
gasta os minutos a amaldiçoar
vidas alheias? Ninguém desperdiça assim
uma energia tão simpática e elevada.
Se o dia, como um disco avariado,
nunca avançasse para além do meio-dia
mantendo-se o sol calmo, quente e alto,
não haveria no mundo um único sintoma
de vingança.

Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia
ed. Leya _ página 258





Fito-me frente a frente, 
Conheço que 
estou louco. 
Não me sinto doente. 
Fito-me frente a frente.
Evoco a minha vida. 
Fantasma, quem és tu ? 
Uma coisa erguida. 
Uma força traída.

Neste momento claro, Abdique a alma bem ! 
Saber não ser é raro. 
Quero ser raro e claro. "

Fernando Pessoa


"Saber não ser é raro" /
Isto lembra aquele poema de Emily Dickinson: Não sou ninguém. Quem é você? Ninguém também... O que traz esta fala é ter ficado dois dias ao lado de um encanto chamado _ Gonçalo Tavares _ e ele sabe + não ser + Ontem quando o Flávio Stein leu a biografia dele antes da sua fala ao público, eu fiquei arrepiada. Então este pequeno mito que conseguiu alcançar de forma acelerada o mundo com seus pensamentos e seus livros, é aquele mesmo ser incrível a falar naquela pequena sala como se fosse um professor de uma aldeia pequena perdida em um mundo perfeito? Somos vinte privilegiados... Colhemos palavras de um poeta e do seu riquíssimo arsenal recebemos alguma armas para as guerras da vida. A lição do Gonçalo é a atadura final que coloco em feridas que nunca cicatrizavam. E o que ele disse no primeiro dia daquela oficina a última gota balsâmica dentro. Vou levar isto, esta certeza de que nossa intuição nos leva para onde precisamos ir. Eu, que raramente inscrevo-me em oficinas, sempre sigo este fio que me puxa para algumas raras, de tempos em tempos. E esta chegou no momento certo para sublimar decisões que tomei e ao ouvi-lo na primeira manhã eu me senti leve, livre... Uma jovem menina que começa a trilhar seus passos em poesia disse com naturalidade, como se aquilo fosse possível: Vamos sequestrar o Gonçalo e não deixar ele ir embora nunca mais. Ficamos tramando uma forma, em tom de brincadeira. Era só nosso jeito de dizer _ Bem, estas coisas deveriam permanecer. Os autores humanos, mais que humanos derramam estas falas que acrescentam e não diluem na primeira esquina depois que você sai de uma palestra. E vou para nosso último dia de oficina com a certeza de que vou sentir como quem vê ir embora alguém que não é daqui, nem familiar, nem melhor amigo confidente, nem nada em termos de coisas passionais. É esta espécie de ser iluminado, que para alguns pode ser aqueles monges que dizem máximas e depois se calam e o universo todo se alinha como se as pragas fossem varridas. Vou sentir isto, este adeus lento de um poeta em carne viva. Sua identidade tem os traços fortes da metafísica de seus livros. E ele vai, como Bloom em seu livro, para um outro lugar, nesta epopeia... E espero reencontrar em algum dia, para beber um pouco mais da água/palavra, esta que ele derrama, como um pastor sublime. A maior beleza é encontrar um consagradíssimo escritor e ver o quanto ele foi grandioso ao raspar toda a petulância e arrogância que se encontra em todo canto. Ele que é _ Ele _ e não se preocupa com nada além daquilo que ele disse ao público: Receber a maçã de ouro de seus ancestrais, e deixar a sua maçã em algum lugar, em uma estrada, para que os que vierem depois saibam o caminho.