Tuesday, August 20, 2013

Crônica da poeta triste _ Bárbara Lia




Quando envelhecemos o cérebro vira um laboratório fotográfico que edita cenas. Um funcionário disléxico que embaralha tudo que aconteceu em nossas vidas em um mosaico lírico. O silêncio de uma manhã ao lado da mãe, o aroma do café e o canto dos pássaros misturam-se a uma noite de medo perdida na grande cidade apressando o passo em um reduto de pederastas e prostitutas, temendo o assédio. Um encontro lascivo em segredo _ arrepiante metáfora do paraíso _ um corpo que estremece e te suga para um beijo rascante é substituído pelo olhar de escárnio de alguém maldito que colocou em tua alma a dúvida com a força do mal a avalizar a fala: _ Nunca serás querida!

O filme surreal passa noite e dia e só te livras dele quando sonhas. E os sonhos são vagos, em dialetos antigos, ou, pessoas sem voz a te revelar os segredos miseráveis que não vão alterar a rota do universo. Os cenários trepidam em ondas altas diante dos olhos: O quintal da infância, farfalhar de cores, a risada do pai, o rito das crianças, latidos e sinos. 
Clarice canta um hino cristalino de humanidade contemplando uma barata no armário.
Kafka olha seu corpo com asco vendo-se outro. Desvio de Kafka para não pisar a capa gosmenta e piso longe ferindo a sola e desejo abandonar este palco e as asas da cucaracha gosmenta. 
O cinematógrafo de Dali escancarado diante da retina. 
Amanheço em dilúvio surreal: Agora tenho trinta e seis anos, deixei meu marido, mãe e pai morreram, perdi um big emprego e estou diante da doutora psicanalista e a ela juro que tomei os florais e que li os livros do Deepak Chopra, sem saber como confessar que sou imune à felicidade instantânea e a tudo que cheira placebo. Nada engana minha alma e decido beber a dor sem adoçar, atravessar todos os desertos, ancorar em algum lugar. Em algum lugar _ que eu nem sabia ainda _ o lugar se chamava Poesia. Gueixa que me atrai _ A poesia. Ela me lambe, excita e me deixa de novo a sós: Mil pregos no corpo e uma chuva de palavras ásperas, ladainha de escárnio caindo sobre minha nudez. Altera a cena, progride o cinematógrafo e agora tudo está mais simples. O tempo espanta o desejo e não terei mais os caçadores da minha carne, quiçá seja sempre este andar na manhã calada, ao lado do neto, ouvindo o canto de um bem-te-vi. 
O paraíso não é aqui. No mundo está tudo contaminado. A Beleza sempre relegada. Quem sabe no escaninho dos tristes eu encontre o salmo de redenção. No lugar dos loucos toda a poesia. Quem sabe em uma cidade de cegos eu possa ver a luz e quem sabe tudo evapore repentinamente e eu volte ao pó. Brilhar entre a grama de um campo santo feito poeira radioativa. Fogo sobre o chão. Vou queimar dentro alma coração espírito. Não creio em céu, no máximo vou morar na luz de um candelabro torto na casa triste de um homem que sorri sempre com os olhos e alma e não se cansa de molhar as flores e não se cansa de cantar aquela ópera que faz arrepiar a alma dos carrascos. Existe um lugar onde a humanidade estanca: O olhar humano do homem que não esqueço. Meu segredo-mor. A voz do neto a me chamar sem cessar apontando a descoberta do mundo. O lábio do filho que pousa manhã após manhã na minha testa. A cumplicidade das meninas minhas que agora são mulheres _ Pequenas “Bárbaras” de auras maravilhosas... E aquela estrela atrás da porta a lembrar da estrada torta de todos os poetas. 

Bárbara Lia / 2013