Wednesday, June 25, 2014

azul

O azul me arranha com cuidado como se alguém retirasse a pele do céu e mostrasse que mesmo os anjos sangram. O azul me incomoda como se a noite tivesse que ser da cor escarlate com estrelas de translúcido branco e nenhum verde ou cinza ou tons que lembrem esta cor da dor. O azul eu o lavo mil vezes até que fique assim: pálido. Inconsequente e mágico, da cor da primeira cor das manhãs, pois parei de considerar o azul amor, o azul atado ao paraíso. Não existe a cor do Paraíso, pois ele é luz e não conseguimos olhar a cor da luz, ao contemplá-la os olhos cegam. Talvez por isto eu comece a pintar de azul alvíssimo o título dos capítulos de RESPIRAR. Quero respirar o que está abaixo de todas as camadas supérfluas – a grande beleza – e raspar a aparência sub-reptícia do tosco que engana a tudo calar todo o som que domina e mesmo o coração que ele soe distante, como um bumbo rouco, suave, quase inaudível e a cor quase transparente. Há muito eu tenho brigado com o azul, este azul desmoronado, que não traz mais a paz nem a promessa... Só quero a luz, abrir o peito do homem amado para saber que calor aquele que voou de seu peito para meu coração e cobriu com uma camada calorosa de ternura de forma material por dentro quando ficamos fisicamente no mesmo ambiente, abrir seus olhos e derramar aquele oceano improvável que ele leva em silêncio, entrar em seu silêncio e respirar, e respirar e respirar, depois voltar à flor dos dias, às camadas do nada: os aplausos, as aclamações, as maratonas intermináveis a que se sujeitam os poetas. Retirar a pele, deixar que sangre o sangue de poeta em algum esgoto. Não somos nada, e só retirando o azul sobre o azul sobre o azul sobre o azul, para encontrar aquele quase apagado, instante-luz, onde é possível amar, poetizar, e derramar a última lágrima pela humanidade.


Bárbara Lia




imagem: Modigliani.