Thursday, November 20, 2014

Fragmento de um discurso fictício, ou algumas palavras para ressuscitar a Primavera




(Fragmento de um discurso fictício, ou algumas palavras para ressuscitar a Primavera)

Bárbara Lia

Romper: Partir, fender, despedaçar, quebrar, arrebentar: romper as cadeias, as amarras.

Meditando sobre o caráter pétreo da palavra: romper as amarras.
E sobre o meu ímpeto radical de só viver o harmonizado.
Quando um fio rompe, nada fica entre meus dedos.
Estico a fita dos sonhos até o limite do impossível, pois sei que ao soltá-la nada amarrará de volta...
Romper o ciclo neurótico de um engano.
Algumas pessoas se decepcionam amorosamente e a reação é trágica. 
Vivem para pugnar em outros a dor que lhe causaram.
Enlaçam em um jogo sórdido as paixões sem mácula de alguém que nem sabe que é só o objeto de um descaso para validar uma vingança perpetrada.
Deve ser bem dolorido viver do sangue de corações ignorantes que tropeçaram em uma cilada.
Prefiro a dor absorvida e a redenção e nunca levar os trapos de uma perda para cerzir dentro de outra alma fazendo com que se contamine com dores que não são suas.
Acho que amor tem um quê de pureza que nem está no corpo.
Um dia ouvi algo ríspido como a flecha do demônio... Eu era uma "tentação do inferno" e via esta pessoa como "coiso". De mim só sei que amor envolve o todo e somos o todo quando levamos à reboque alma e corpo e alguns mistérios. Há prostitutas mais puras que aqueles que abraçam o que é das alturas e se nominam - iluminados - para julgar e punir e tentar antecipar um juízo de valores. Morro de medo dos "iluminados". Se quando amo sou toda e em tudo e se nunca - invento amor - para vingar dor antiga, então, o amor atravessa o ciclo. E o que resta é a memória adocicada, temperada de vida, pois o encontro dos amantes nada é mais que a humanidade ampliada, e dentro da minha pequenez em tudo, nunca induzi a nada, pois só posso abrir minha alma se puder entrar em outra alma inteira e sem farrapos do passado, sem contaminar ninguém com dor ou vingança mesquinha. É preciso ser forte. É preciso sentar e olhar nos olhos e dizer - isto é um jogo que fazes. E acreditar que o jogo é finito, mas, ele nunca é... Um dia eu quis abraçar o corpo dele e curar tudo, eu quis lavar aquela nódoa, quis entender, daria o mundo por um tempo onde aquela interrogação imensa desaparecesse e libertasse, todas as correntes a nos soltar. Hoje descobri que a fita do sonho tem que ser desatada, que a vida é linda demais para te prender em um círculo onde alguém come teu coração à bocadas pequenas, e sangra e segue e depois do pedaço arrancado uma flor pousa como bálsamo, pra depois arrancar outro pedaço e coração não se regenera. Não é fígado de Prometeu e o amor não é uma pedra. O amor é uma asa, aquela canção, as pedras que trituramos, o amor é (foi) a boca mais bela e mais sarcástica, o amor é a primavera aconchegada de esperança, a neve branca que nublou o fel. O amor É. Eu sou. A vida É. O pássaro segue, a fita voa, cai em um lugar, vai virar serpentina das noites dos desgraçados, e a Poesia vai ficar como a cicatriz de um amor que foi, sim, tão lindo em mim, mas, que acaba, como acabam as estrelas, como secam os rios, como acaba a vida de um poeta que é pássaro, como é finita a canção, toda canção, por mais bela... Soltei o fio. Soltei o fio do sonhos... Acabou o tempo... Restou a liberdade.