Wednesday, July 05, 2017

A Literatura está morta. Viva a Literatura!



- escrito após leitura da matéria da Folha de São Paulo "Editoras recorrem a "leitor sensível" para evitar ofensa. 



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O escritor reproduz seu tempo. Ele é o - sensível - que ao tocar auras e caminhar pelo mundo, algumas vezes em um tempo que nem viveu, consegue traduzir o interior humano. Neruda disse que - o poeta escreve sobre oceanos que não conhece. Talvez seja mesmo - o fingidor - que Pessoa disse. Uma tarde em uma festa familiar uma senhora bem idosa e com idade para ser minha mãe, considerem então velhíssima, me olhou e disse: ou você é muito inteligente; ou foi garota de programa. Eu que sou a mais platônica, que vivo cada ciclo de cada amor até queimar a última chama, que só consigo tocar outra pele se ela for um céu para mim, fiquei olhando aquela senhora e sorri. Ela havia terminado de ler - Constelação de Ossos. Nele a garota Lynx (constelação mais apagada do céu), foi vítima de violência doméstica, fugiu de casa, e se tornou marginal, menina de rua, cantora de bar. As pessoas olham o lado onde o carimbo das toscas normas sociais brilham. As pessoas olham apenas o lugar onde alguém viveu de um jeito que não agrada estatutos e normas. Eu aqui pensando naquela fala. Acho que sou só - inteligente e sensível - e escritora. Penso ter dito que era inteligente, e sem ânimo para explicar que seria tão Bárbara caso tivesse sido Lynx. Caso ficasse sem saída, aos treze anos, abandonada de afetos. E o preconceito a gente detecta frase a frase, e por vezes só no olhar. Há milhares de pessoas inteligentes e sensíveis em outras carreiras profissionais. Elas também ajudam a neutralizar o ódio besta que se instalou no mundo, esta histeria em massa que foca em coisas que não diminuem o homem: sua pele, sua religião, sua opção sexual... Fico triste ao ler uma notícia destas. Com um romance que iniciei onde uma menina se apaixona pelo professor, com certeza absoluta que cairão críticas (em nossos dias Nabokov seria execrado), revisando outro onde acontece um incesto que nem é incesto, pois é sobre uma garota que foi adotada já na adolescência e se encanta pelo irmão adotivo. A vida tá foda, em todos os sentidos. Em todos. Como se fossem fechando as portas e janelas condenando os livres à escuridão, mas há sempre uma claraboia e a luz pequena por onde a gente escapa. Dizer que alguém é preconceituoso ao reproduzir o mundo, não é justo com os autores e ando MUITO cansada de poesia autoajuda, conselhos nas entrelinhas e otras cositas más... O mundo tem - sim - racismo, crueldade, violência e machismo e preconceito com quem não ama esta coisa assim - menino azul e menina cor de rosa, mas, é preciso ir recolhendo as flores entre os escombros, aqui não é mesmo possível uma igualdade, ou felicidade para todos, ou pessoas no poder pensando no povo, os séculos e os milênios provam isto, mas entre a barbárie e a falta de almas capazes de viver o grande legado humano, este barato que só quem viveu sabe, os poetas e artistas, escritores e atores, cada um que olha o mundo para transformar em um objeto palavra livro tela cena fotografia, este deveria ter o direito de reproduzir o que seus olhos - estes sim, sensíveis - estão a ver naquele momento. E fica esta infinidade de livros e poemas que algumas editoras passarão às mãos de adolescentes doutrinados: teu coração de seis décadas, teu olhar sobre a beleza e a tua feminilidade, tuas asas e tua coragem de viver cavando até o fundo, lá onde mora a gema preciosa, a aura do sol, a parte que me cabe neste latifúndio.