Monday, January 18, 2010

Chuva

Desenho de Ane Fiuza - após a leitura do meu livro de poesias - A Última Chuva -
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LAYLA . 


 calçadas molhadas 

- uma lâmpada grávida 

estremecida de sol pequeno - 

a lembrar que ainda é verde o trigo. 

florirá amanhã

em sol granulado

farpas de doçura

sempre.

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*

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DRÃO

“Grão, o amor da gente é como um grão”

Gilberto Gil

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grão

grão

grão

a cantar

as horas

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gota

gota

gota

a cantar

a chuva

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folha

folha

folha

a cantar

o outono

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bem-te-vi

bem-te-vi

bem-te-vi

a cantar

novo dia

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lâmina

lâmina

lâmina

a cantar

o amor.

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(Amar é ferir-se

em

lâminas

sollasidoremifa)

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*

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Deus é a chuva. Só seu abraço líquido me faz leve. -Uma tarde na volta do colégio o vendaval molhou cada poro meu, encharcada de Deus entrei na panificadora e era só alma - o pão pesava mais que eu- Sei que Deus é a chuva quando o mais belo som é Ele abraçando a grama. É um diálogo de amantes como se os pingos em som de prazer se unissem às pétalas rudes pequeninas verdes, e o som rascante do gozo fatal se ampliasse, sem ferir. É calmo o som do amor -chuva na grama -.

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*

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A chuva baila cinza na vidraça

que abre a cidade e

as cicatrizes de concreto.

No mundo não há quem leve

como eu, este solar crepitar na alma

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- POESIAS DO LIVRO - -A ÚLTIMA CHUVA (ME/2007)



- Cai chuva do céu cinzento (FERNANDO PESSOA) 


. Cai chuva do céu cinzento 

Que não tem razão de ser. 

Até o meu pensamento 

Tem chuva nele a escorrer

Tenho uma grande tristeza 

Acrescentada à que sinto. 

Quero dizer-ma mas pesa 

O quanto comigo minto.

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Porque verdadeiramente 

Não sei se estou triste ou não

E a chuva cai levemente

 (Porque Verlaine consente)

 Dentro do meu coração.


Thursday, January 14, 2010

Lágrima

Penelope Dullaghan - Isolation Help

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Crescente

a lágrima
a lâmina
ceifa sorrindo,
no lodo,
o lírio.


...

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GIZ RENDADO
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O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado.

...


CÉU FULIGEM


era de aquarius


15.05.05


...

Pensei: vou morar em uma lágrima.
E vi cenários de Kandinski atrás da cristalina dor.
Vi os retorcidos rostos detrás dos espelhos d’água.
Vi uma casa-banheira, eu sempre líquida.
Vi um teto vidro fosco, eu a olhar estrelas.
E quando secar a minha casa?
E como secar meu coração?


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Lágrima – Velho Tema

Jorge de Lima
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Ó lágrima bendita e santa e universal,
Eu te quero cantar, e este meu canto inspire-o
A feição que eu te dei, de intérprete geral
Da dor – de todo ser infalível martírio…

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Que processo te faz no minério em cristal,
E na gota que luz no cálice do lírio?
Talvez tenham os dois, uma tortura igual
À tortura que funde em lágrimas o círio.

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Seja embora ilusão, hei de sempre mantê-la:
- No côncavo do céu, há lágrimas astrais
E o bólide celeste é a lágrima da estrela!

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Malfadadas irmãs! – são lágrimas iguais:
A resina que cobre as árvores fendidas
E a lágrima de dor das íntimas feridas!


Wednesday, January 13, 2010

os poetas da ação

Como los pájaros, que cuidan de sus hijos al hacer un nido alto de los árboles y en las
montañas, lejos de los depredadores, las amenazas y peligros, y más cerca de Dios,
debemos cuidar de nuestros niños como un bien sagrado, promover el respeto sus
derechos y protegerlos. (Zilda Arns)

**

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Certa vez escrevi que os poetas do nosso tempo são os ativistas do Greenpeace e os Médicos Sem Fronteiras. Nossa médica sem fronteiras merecia - mais que Obama - O Prêmio Nobel da Paz. As incontáveis vidas que ela salvou com a Pastoral da Criança. A força que ela imprimiu a um movimento que alimentou as criancinhas pobres do Brasil e que seguia, alimentando mundo afora. Hoje é um dia triste. Ao mesmo tempo é o momento de agradecer e agradecer e agradecer pela poesia-ação e a fome de vida que cresceu no coração de Zilda Arns. Morreu em ação. Em movimento. Rima viva sem ponto final. Poesia que não termina, que segue sendo escrita por um movimento que criou raízes e que fez do Brasil um País menos doente, menos faminto, menos triste.

Tuesday, January 12, 2010

Árvore


Van Gogh
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Decreto:
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Proibido derrubar

qualquer árvore
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(exceto para

construir
berços
e violinos)

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AZUL NOTURNO .


O anjo louco do casario deserto,
era invisível feito música.
De noite subia na árvore.
De dia descia ao poço.

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A voz – imã de luz.
O perfume – avenca suave.
A sombra – azul noturno.
O olhar de mar – salgado.
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Anjo sem céu.
Anjo da terra.
Enlouquecido
de som e luz.

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(O sal das rosas - Lumme Editor / 2007)

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...

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HABIB

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Cedros do Líbano, entre-folhas secretas

Gravam nosso idílio - Saara incendiado.

Dança do ventre - teu olhar tâmara ardente.

Corpos reluzindo azeite - deleite - estrelas

Do deserto espiam. Alá me guia!

Tens sabor de damasco,

Olhos egípcios, pele de sol.

Habib. Habib.

Sussurro no auge.

Luz bruxuleia - tenda ao luar.

Luar a nos enlaçar

Na luz azul.

Guardar o gozo etéreo - eterno.

Habib - murmuro. Teu corpo se queda

Saciado, em meu corpo. Movendo astros.



...

(...)

Acordo

E tem um rio podre

Em minhas veias

Rasga e acelera

Meu coração

Em mágoa coagulada.

Nas pessoas, não há sorrisos.

Nem esperanças de primavera.

E na luz do dia, me apavoro...

Rostos que olho e

Vejo cadáveres,

Meninos mortos, esqueléticos.

Árvores sangrando

Folhas negras

E vento rasgando a rua.

Os cachecóis coloridos

São forcas esgarçadas

E as calçadas, areias movediças.

A música enlouquece em

Guitarras estridentes.

Anjos satânicos dedilhando gritos.

O sol esfria nas artérias.

O aroma do pão fresquinho congela no ar

E não chega aqui, para me lembrar — é dia!

(...)

(Fragmentos)





...


ARCO-ÍRIS BRANCO

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Pássaro bicou a paina

no galho alto,

repercutiu neve.

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Caías em mim

— arco-íris

branco

fragmentado

em sete tons —

.

pele

sorriso

fumaça do cigarro

esperma

notas do violão

voz e alma.

(Noir / 2006)


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Link para o conto - Mulher na àrvore



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A Árvore da Serra
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— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
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— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...
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— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
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Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

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Augusto dos Anjos

(1.884 - 1914)

- biografia -




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