
A gralha azul lava as asas no tanque de açucenas. O marajá de Yankipur espia os gestos da ave. Possui reinos, mas não possui o vôo. Só o ouro pesa nas mãos - ópio que engana. Admira as asas abertas azuis e pensa:
- Quero teu vôo!
A sereia na pedra sonha serem os negros cabelos - asas, e reclama:
- Não quero a úmida pedra e este canto que enfeitiça os habitantes das naus. Não quero raptá-los à lua, enamorados. - Quero asas!
Entre o marajá e a sereia, a gralha azul voeja e batiza o sonho de um deles com espumas de prata. O marajá olha insolente, mas, volta as costas ao milagre, preso ao peso do ouro, reclama:
- Quero asas!
Sonha raptar a sereia, adornar seu tanque de vidro e águas perfumadas. A sereia sorri e voa para longe das mãos ferinas, feliz por ter, no ritual da tarde, recebido asas azuis de vidro.
Bárbara Lia.
Ilustrado por Ane Fiuza