Tuesday, June 12, 2007

BATISMO DE SANGUE
















































Sair do cinema, depois de ver Batismo de Sangue, com a alma gelada, na cidade gelada, esperando um ônibus gelado, dentro de um tubo gelado, asséptico, diferente da vida acalorada dos anos sessenta, que engendrava morte - mas, era VIDA.
Eu esperava não ser surpreendida ao ver o filme. Eu sabia que ia cerrar os olhos nas cenas de tortura (foi o que fiz), que ia sangrar de novo a alma junto com Tito, que na França vê "fleurir" rosas do avesso, pétalas espinhosas a ressuscitar o carrasco. Para Tito, passear pela primavera na França era evocar Fleury, pois a palavra fleurir não trazia a magia do colorido que perfuma e atravessa cidades e jardins... Fleurir. Dura palavra. Eu pensava que estava ali para saber de que forma Helvécio Ratton havia construído os espisódios, depois daquela provocação de Frei Betto ao dizer - a vida supera a ficção - e o filme reproduziu fielmente cenas e até mesmo pessoas. Mesmo não sendo citados e mesmo como coadjuvantes, reconhece-se facilmente, José Dirceu e Wladimir Palmeira no episódio do congresso da UNE...
Os dois momentos que revelaram a força do filme. Reproduzir a solidão de Tito, a neve, a ausência dos seus e a saudade da Pátria, isto para mim elucidou um pouco mais a angústia do rapaz que antes de morrer disse a Frei Osvaldo - Já não creio em mais nada: nem em Cristo, nem em Marx, nem em Freud. A grande falha foi não deixar transparecer no filme que ele amava as canções de Milton Nascimento... E a grande hora, que sacudiu dentro em beleza, que fez a paz sentar-se ao meu lado na poltrona, que mostrou que sempre a arte surpreende. A hora de beleza estranha, quando os quatro freis pedem para rezar uma missa, e os carcereiros trazem uma caixa de papelão, dessas onde se colocam pizzas cheias de bolacha maria, e um pacote de Q-suco. E eles arrumam a mesa, e preparam o "vinho" e repartem o corpo de Cristo, com a trilha sonora que traduz mesmo uma certeza de paraíso, meio às grades e os presos, meio ao olhar de escárnio dos carcereiros, que pouco a pouco vai se tornando veneração, diante da fé dos quatro freis, a repartir o corpo de Deus, em profunda comunhão e certeza deste mistério... Foi sim, um reencontro com minha fé perdida, esquecida pelos caminhos, respingada pelo susto de não entender um Deus que não intervém... Assim como não interveio nos caminhos de Tito, nos caminhos de ninguém... Um Deus que se faz bolacha maria e ocupa a cela e espalha uma luz serena, uma paz amena ao redor, em um instante tão cru, se fazer verdade, na oração e na coragem dos frades... Eu pensava que ia segurar a onda, mas, eu estava lá, vivendo a missa verdadeira, aquela diferente das missas assépticas, aquela onde o sacrifício é verdadeiro, então eu chorei de reencontro e partilha e de encanto e de graças por que no mundo existem pessoas que ressuscitam, que acreditam, que não se abalam, nem mesmo na cela...

Não há propaganda do filme, não há muito desejo de que se faça alarde, não há mesmo desejo algum, de que os homens sejam feito eles, assim corajosos, arrebatados por um sonho que eleva e não nivela... Então, o grande deus mercado é mesmo quem recebe os cultos, e por todos os séculos dos séculos amém os homens louvarão as marcas e só amarão as loiras lindas e peitudas e só andarão em carros importados e serão infelizes para sempre sem uma lancha e um helicóptero e uma casa de um milhão de dólares, então a vida vai ser sempre esta busca insana, do gozo leve e lerdo que a vida dá, quando é vivida assim - à margem do belo, sem derramar-se na loucura maior que é o amor, e amor em toda e qualquer dimensão exige alguma coisa que não mais existe - entrega.
Batismo de Sangue - dirigido por Helvécio Ratton - Daniel de Oliveira interpreta Frei Betto. Caio Blat, interpreta Frei Tito, frade dominicano que suicidou-se na França, depois de banido e atormentado pelas torturas sofridas.