Sunday, September 30, 2007

AROMA DE ANIS





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Lá nota musical. Lá como eu chamo Laura. Assim como Letícia é Lê ou Bárbara é Bá. Lá. Lá e seus cabelos com perfume de anis. De todo o anis estrelado que ela atirava embaixo do travesseiro. Para acalmar a alma fera e dormir. Simpatia que a cigana ensinou. Lá agita os cabelos espalhando estrelas de anis pela sala. O moço do trompete no quadro da parede se embriaga, quase cai sobre as letras abaixo de seus pés.
J
A
Z
Z

Lá e suas crises sem hora marcada. Perdi a única montagem da peça do melhor amigo. “Memórias do Subterrâneo” soterradas no amparo da líquida ternura dela. Os olhos castanhos esverdeados mergulhados em uma mistura de vida/sal – lágrimas ininterruptas.
Recostar, como bom namorado, sua cabeça cansada em meu peito e ficar imóvel até que ela adormeça. Esqueça Dostoievski!
Lá na absurda curva de suas estranhezas. Sentada à mesa do Café Express diante da porta de vidro que dá para a Praça Santos Andrade hipnotizada pelo balé das pombas.
Pombas em bando, dezenas de pombas. Não apenas uma, e outra,
e mais outra, como no poema antigo...
Vão-se em bandos as pombas despertadas...
Não li entre as notas musicais da sua agonia. Nem nas pequenas metáforas suas. Nem nas flores que ela me trazia o seu pedido de socorro.
Uma rosa artificial desbotada - de papel machê. Ou uma flor daquelas que a gente sopra e ela dissolve-se branca... Era seu jeito de dizer que o sopro da vida poderia desfazer a flor em lá menor. Lá e suas insinuações mudas. Não li os signos.
Ela andava a ouvir boleros de Luis Miguel...

Te vas porque yo quiero que te vayas

A la hora que yo quiera te detengo,

Yo sé que mi cariño te hace falta

Porque quieras o no Yo soy tu dueño

...

Me encanta la media vuelta, angel...

E me torturava com um bolero triste a tarde toda.
Eu ignorava o brega e o triste quando ela me atirava ao chão com beijos de halls cereja me asfixiando de estrelas sabor anis quando seus cabelos caiam sobre meu rosto e ela gemia constelações inteiras como um cometa perdido procurando um lugar, um lugar para pousar e era a metamorfose cristalina: O rostinho dela molhado de suor encaixado no meu peito e ela adormecida. Linda! Longe dos boleros e fantasmas e rosas suicidas e flores que se desfazem em um sopro.
Por isto, não pensei em mais nada para depositar aqui nesta lápide branca além de um sachê perfumado de anis estrelado.
Em algum lugar Lá dança espalhando estrelas azuis.
Lá aonde eu nunca mais irei acalmá-la recostando no meu peito estraçalhado de amor sua cabecinha atordoada, enquanto ela repetia até adormecer:

Dói viver, dói viver, dói viver, dói viver...

Lá dizia que o gosto do céu é menta com chocolate.
Inverno de quase neve na cidade gélida, nossas bicicletas encostadas em algum lugar à nossa espera enquanto o sorvete derretia em nossas bocas ela repetia...

Céu! Este é o gosto céu: Menta com chocolate.

Em todos os invernos provarei o gosto do céu olhando o vôo das pombas sentindo o aroma de anis de seus cabelos espalhados.
E um sopro suave à saída do Café Express me trará esta certeza: Dela ao meu lado espalhando anis no ar com a ternura dos naufragados.
BÁRBARA LIA