Tuesday, October 02, 2007

A AMIGA CHORA

Tínhamos nossos papos secretos. Lembro quando ela começou a namorar o Sérgio e lembro da felicidade da segunda chance, para ambos. Lembro quando ela foi viver na Europa quando o Sérgio foi gerente do BB em Amsterdan, e de como nos encontramos na pracinha diante da Sec. da Cultura quando ela retornou e nos sentamos à sombra da árvore e ela me contou sobre Paris. Lembro que queria detalhes e queria inserir seus lugares nos meus escritos. Lembro do almoço marcado há muitos anos, quando eles começaram a namorar... no segundo andar da galeria onde existia o Cine Groff e foi através dela que descobri o melhor ganash da cidade e a Livraria Lilith, da Bebeth Gurgel. E quantas vezes voltei lá para comprar os livros em uma livraria feminista. Muito envolvidas com nossas próprias vidas convivi no dia-a-dia com ela apenas durante os anos em que trabalhamos juntas. Mas, existe um fio de ouro que une as pessoas e existe em mim uma sensibilidade extremada.
Na quinta-feira assassinaram o Sérgio, o marido dela, o nosso colega de trabalho que sempre foi tal qual na morte, decidido, intrépido. Um síndico irado com o morador que tenta desvendar as suas falcatruas. E morreu o ex-colega, casado com uma pessoa que eu quero bem. Não dormi na quinta, acordei sentindo um abraço forte, assustada com a despedida intrépida. Havia um grito naquele abraço que eu não entendi. Assustada fui dormir na sala. E os dias seguiram e eu concentrada nos meus escritos, sem saber da morte do Sérgio, tentando vencer a barreira do tempo, terminar meu romance para tentar a única forma de um escritor iniciante neste país publicar seu primeiro livro - os concursos, as tentativas...
Nariz enfiado no computador, escrevendo, criando, corrigindo... Mas, com uma sensação estranha ao redor.
Apenas ontem me sentei diante da TV e no noticiário local ouvi o nome do homem morto pelo síndico. Ter entendido as sensações dos últimos dias. Saber que do seu modo e com sua força recebi um adeus. Ir ao encontro dela - triste e atordoada morando no mesmo prédio que vive o assassino do marido, vivendo no corre-corre de depoimentos em delegacias. Uma certeza de que o mundo está mesmo a um passo da derrocada. Que não há mais limites, um mínimo de humanidade onde quer que seja. Que o capitalismo selvagem faz lembrar uma fumaça invisível e inodora que adentra as almas das criaturas, seus corações, e rasteja ao límite do corpo e invade o espírito e corrompe. Mundo do avesso onde importa apenas o que na verdade não importa...