Friday, October 05, 2007

O Ano em que Meus Pais Sairam de Ferias

1.970


O ano era 1.970.
1.970 era o telefone dele.
Minha pasta do colégio era decorada com fotos em preto e branco.
Puro charme dos meus jogadores mais amados - Clodoaldo e Tostão.
Eu parava na banca de revistas do pai dele e ficava olhando a revista Placar para olhar entre uma página e outra o seu olhar.
Um artista, escultor.
Um menino de pele clara que eu nunca beijei.
O papel carbono e a primeira poesia escrita na máquina de escrever Olivetti.
Tudo preto no branco.
Até o ar era preto e branco.
As fotos do jornal.
As cenas que eu via na TV.
Eu era a índia Potira.
Tinha um amor e uma mina de diamantes...
Vez por outra no túnel do tempo um diamante brilha no interior da gruta.
Tudo colore súbito: a chuva caindo no meu uniforme bordô, ele sorrindo no meio de umas revistas coloridas, arco-íris me esperando no final da rua quando eu voltava do colégio... a gargalhada colorida de papai... os olhos mel de mamãe...
Depois, tudo volta a ser preto e branco, em 1.970.
1.970 era o telefone dele.
Os telefones eram antigos e negros como em um filme noir.
Bárbara Lia


- O ano em que meus pais sairam de férias foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2.008 - Particularmente voltei ao tema e ao ano colorido de um tempo que tudo era preto e branco. No filme o garoto é filho de um guerrilheiro. Eu sou filha de um partidário da direita, que chamava os revolucionários de terroristas, e que vibrou quando Petras - o jogador tcheco que fez o primeiro gol contra o Brasil se ajoelhou e fêz o sinal da cruz - Meu pai dizia que um jogador de um país socialista havia rezado diante do mundo... Nada mais seria como 1.970, que por coincidência, era o nº do telefone do menino que despertou meu primeiro olhar de encanto. Eu tinha 14, era goleira no time de futebol da rua, prá completar o time do meu irmão. Lia revista placar, e vivi minuto a minuto o nosso ano de ouro da nossa melhor copa, e nem sabia que era o mais rígido ano nos põrões da repressão...