Monday, November 05, 2007

OS POETAS MENORES

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Os poetas menores vão conversar nas livrarias,
frequentam palestras, congressos, seminários
e tardes de autógrafos pensando nas suas.
Os poetas menores participam de semanas culturais
e feiras do livro até no interior.

Só não estão em casa trabalhando.
Não têm tempo.
Os poetas menores fazem visitas e são visitados.
Assistem a sessões em que conhecem a mesa e a platéia
e cumprimentam cada um.

São os primeiros a abraçar pelo prêmio ou a homenagem
e apesar disso
têm emprego, mulher, filhos, fumam,
ou não fumam,
comem nas horas regulares
e escrevem.
Não sei como.

Já os poetas andam atrás da sua poesia.
Segundo Faulkner, por elas deixariam morrer as tias.
E tias é um eufemismo, a Bíblia diria pai e mãe.

Ninguém mais fácil de contentar que um poeta menor.
Lembre algo que ele publicou
e logo receberá em sua casa suas obras completas,
sempre mais numerosas do que previa
e com dedicatórias de enrubescer seu ego,
por desproporcional que seja, como é a regra.

Folheia os livros e viu tudo,
se aproximam, não chegam, repetem, não dizem.
Mas o autor deseja opiniões precisas
e se refere a páginas que não estão
entre as vinte e duas que não leu
e não gostou.

A sorte é que supõe a favor o que é reserva
e sorri.
Para o poeta basta o que escreve,
o poema dá sentido à sua vida.
Sem o poema, restam ao poeta menor os comentários.
Não estranha que seus tímpanos dobrem de sensibilidade
ao menor sinal de interesse.

O poeta menor ri, fala macio, é prestimoso,
evita problemas na vida como na arte.
Por isso justamente é menor,
embora sofra tratando de não sofrer.
Na arena das relações e das letras,
não enfrenta os leões,
mas não acaba menos devorado,
pois há leões onde menos se espera.

Não se pode dizer que o poeta menor viva uma vida atribulada.

Busca se preservar de riscos,
o que às vezes é tão incômodo como corrê-los,
mas a falsa poesia que faz mostra que leva uma vida falsa.
Vivesse para valer, podia não ser poeta,
mas não seria um poeta menor.
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O poeta menor não chora de noite como o poeta,

de noite ele dorme.
No outro dia, refeito, ocupa-se tanto
que não sobra espaço para o poema.
Já o poeta,
mesmo sem pensar no poema, o vive
e assim, quando vai ao seu encontro,
pode dar com ele.

Diante destes fatos, e outros de teor semelhante,
vê-se que os poetas não costumam ser agradáveis
e que os poetas menores são encantadores.

É ir ao poeta pelo poema
e folhar em pessoa o poeta menor.

PAULO HECKER FILHO
(1926-2005)
do livro Vento, Águia, Coelho
(Ed SMC-POA - Coleção Petit-Poa/1991)
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