Tuesday, January 15, 2008

RAINER MARIA RILKE

























Danaid - Rodin

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Havia no fundo dele a obscuridade, o refúgio e a calma de uma casa, e ele próprio era o céu acima, era a floresta em torno, e a extensão, era o rio que corria para sempre diante de si. Que solitário, aquele velho, estragado nele próprio, de pé, carregado de seiva, como uma velha árvore de outono. Ele se fez profundo; cavou uma profundidade em seu coração, cujas batidas vêm de longe, como do centro de uma montanha. Seus pensamentos circulam nele, enchem-no completamente de gravidade e de doçura sem se perder em superfície. Ele se endureceu, fechado ao inessencial, e se ergue em meio aos outros homens como sob a proteção de uma velha casca. Mas para o essencial ele se desata imediatamente, e perto das coisas, ou quando os homens e os bichos o tocam mudos, à maneira das coisas, ele se abre inteiramente. (...) O que ele olha, o que ele envolve em sua contemplação é sempre para ele o universo único onde tudo se produz; quando ele modela uma mão, ela está sozinha no espaço, nada mais existe além dela; Deus, em seis dias, só criou uma mão, é em torno dela que espalhou as águas, acima dela que abobadou o céu; e quando tudo foi acabado, ele repousou de a ter criado, e houve um esplendor e uma mão.

(carta de Rainer Maria Rilke à Lou Salomé, narrando o escultor Rodin, em poesia)

Humana, demasiado Humana (ed. Rocco )- Biografia de Lou Salomé por Luzilaá Gonçalves Ferreira