Friday, July 25, 2008

No caminho com Jiddu Saldanha

Foto Oficial de Jiddu Saldanha - Ernani Bezerra

Roda de estudos com Jiddu Saldanha - foto André Amaral




1.
por mais que o instante

seja breve
a caneta escreve

Jiddu... Recordo que antes de mergulhar nesta trilha louca da poesia eu já sabia que existia Jiddu. Mas, o que eu não sabia é que você nasceu mesmo aqui nesta cidade. O que Curitiba representou para você e para a sua Arte?... E o que te despertou para a poesia e a mímica?


Eu vivi uma paixão profunda por Curitiba, no bairro do Boqueirão, onde nasci e vivi a maior parte da minha infância e adolescência, circulava a pé entre as comunidades só para ver de perto o estilo de vida das pessoas. Sempre achei Curitiba muito curiosa porque a presença do imigrante polonês, italiano, alemão e japonês era muito forte e por onde eu andava fui ficando amigo daquelas pessoas.
Hoje eu vejo que foi uma infância muito estranha porque lá no fundo, as comunidades não me assimilavam bem. Eu era um “ET” e hoje percebo que me divertia sozinho... não sobrou nada daquele passado a não ser o fato de que o colégio polivalente, que tinha um muro mais baixo, permitia que eu ficasse na biblioteca, uma ótima biblioteca por sinal. Li muitos clássicos ali dentro. Um dia, doei para aquela biblioteca toda a minha coleção de “Obras Primas” da abril cultural, lembra? Acho que eu já intuía que não ficaria em Curitiba por muito tempo.


2.
na hora de partir

lembranças de tudo
a vida se reescreve
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Ir para outro Estado (Rio de Janeiro) era desejo de reescrever a vida?
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Sim, Curitiba não me assimilava muito, talvez porque a cidade meio cinzenta parecia não combinar bem com o meu estilo ensolarado de ver a vida, mas também não é só isso... eu realmente percebi que viver de arte tem de ser em cidade muito grande porque eu precisava combinar um certo estilo meio anti-social com uma profissão que depende do social pra se afirmar, falo do teatro.
Mas eu sou filho de uma carioca que foi morar em Curitiba e meu pai, do Amazonas, viveu muitos anos no Rio de Janeiro, de maneira que, dentro da minha família havia um certo espírito carioca, muito embora, eu seja um curitibano inveterado, daqueles que levantam de madrugada pra tomar um copo de leite!
Mas o Rio de Janeiro foi um acidente, eu queria mesmo era São Paulo, mas percebi que são Paulo era uma Curitiba com 12 milhões de pessoas, cruz credo, saí correndo e vim parar no Rio de Janeiro que dizem, se parece com Cuba...

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3.
Haigin solitário
Passeia pelas cores
Do seu calvário

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Em setembro de 2.001, te vi no palco do Teatro Londrina. Lembro que fiquei impressionada com a sensibilidade sem par da tua apresentação. Ando desesperadamente em busca da delicadeza e lembro a delicadeza do teu recado mudo. Como você passeia pelas incolores vielas nada poéticas que vez por outra a gente encontra no mundo artístico? Ou será que Curitiba é mesmo um caso à parte?


No começo eu achava que Curitiba tinha muitas culpas, mas quando saí daí, descobri que Curitiba é só mais uma cidade brasileira que tem um povo que cultiva alguma esperança. A cidade foi se ajeitando à sua maneira e eu, precisei amá-la mais para poder, inclusive, compreender as outras cidades onde vivi.
Depois que me re-apaixonei pela minha cidade, percebi que a cidade dá o que pode dar e que a gente tem mesmo é que ir abrindo caminhos nem que seja a dentadas, pra se afirmar como artista.
Quando comecei a fazer mímica, era como se não quisesse mais falar com ninguém e sim escutar mais, ouvir mais, me interessar mais pelo que era diferente. A mímica foi uma terapia social pra mim, no sentido de que, me conferiu cidadania e presença no certame das artes mas sempre fui um artista de pequeno porte sem muita estrutura psicológica pra bancar grandes empreitadas...

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4.
Viajante tranqüilo
Sabe das distâncias
Solo de flauta

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Você viaja para todo lugar e registra tudo com a tua famosa - Mala da fama.
Como surgiu a Mala da Fama? Conte um pouco sobre a tua Mímica? Esta paixão tem algo a ver com Carlitos?

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A Mala da fama foi um foco mágico que acendeu na minha cabeça. Ela surgiu na época em que o Fernandinho Beira-Mar era o bandido mais famoso do Brasil, seu antecessor fora o Leonardo Pareja, lembra? Percebi que a mídia brasileira dava mais importância aos bandidos do que aos artistas, então, por ironia eu criei a MALA DA FAMA, decidi que eu ia conferir um título de famoso a todo aquele que tirasse uma foto com a Mala. Foi uma brincadeira irônica e saudável que já tem quase 10 anos, foram mais de 50 mil pessoas fotografadas até hoje.
Sobre mímica, bom, eu me tornei mímico por via das circunstâncias, foi uma linguagem se adequou naturalmente ao meu corpo e, com a ajuda do Everton Ferre (pra mim o melhor pantomimo do Brasil) eu ingressei nesta arte e já estou a 20 anos por aí! Mas agora estou me dedicando mais a dar aulas. Tenho sentido um certo cansaço de ficar em silêncio por quase 20 anos...


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5.
passou por aqui

uma formiga afoita
cigarras no jardim
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Posso estar errada, mas, tenho a impressão que o teu trabalho acaba por se tornar uma grande festa. Em um dia você é a formiga, e no outro, a cigarra. Mas, o resultado é brilhante sempre. Acho lindo e poético o projeto – Cinema Possível – fale sobre ele.

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Este projeto é a coisa que mais amo na vida. Eu sempre quis fazer cinema, mas desde criança sempre me falaram que cinema era coisa para pessoas com muita grana, gente que ia estudar fora, coisa de gente bonita e tal... eu ia ao cine arlequim e assistia três filmes chineses com apenas um ingresso e as vezes o porteiro me deixava entrar de graça porque dizia que eu ia ser um cineasta um dia...
Mas recentemente, em 2007 a ficha caiu... cinema é pra qualquer um, esse negócio de dizer que cinema é para os eleitos, não dá, essa máscara social caiu. E com as novas tecnologias tudo se tornou possível por isso dei esse nome pro meu projeto que é um projeto bem complexo que envolve produção, realização, oficinas e pesquisa com filmes, sempre com câmera fotográfica digital que é a tecnologia acessível hoje!

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6.
imensos bambuzais

só o vento os entende
ninguém mais


Faltou falar sobre as – Artes Plásticas – em uma seqüência possível de se delinear, o que chegou antes - Mímica, poesia, as tuas telas e agora o cinema possível? Eu sou tão apaixonada por pintura tanto quando pela poesia. Como aconteceu o teu despertar para as artes plásticas? Algum grande pintor o inspirou? Ou muitos?... Quais?


Aconteceu uma coisa esquisita comigo em 1991. Um dia eu estava fazendo um show de mímica na rua e um homem ruivo de quase 2 metros de altura, perguntou se eu não podia ajudá-lo a encontrar um lugar pra ficar em Curitiba. Eu vendo que ele era boa pessoa convidei-o pra ficar na minha casa, eu morava sozinho num apartamento de 2 quartos lá no Pilarzinho. Qual não foi minha surpresa quando descobri que o Homem nada mais era que um Artista Plástico nascido em Barcelona, isso mesmo! Era um Pintor Catalão...
Eu fazia mímica, mas, via ele pintando o dia inteiro e pedi para ele me ensinar algumas técnicas. Ele ficou na minha casa durante três meses, com a esposa dele que se chamava Thereza e, quando foi embora, deixou algumas bricolages que tinha feito com minhas fotos de mímica.
Em 1999, já no Rio de Janeiro, eu me deparei com uma crise profissional muito grande. Percebi que eu me tornara um mímico velho. A técnica que aprendi já não tinha mais valor comercial nenhum. Simplesmente ninguém me chamava pra trabalhar e as escolas de teatro e instituições, passaram a me desprezar. Então eu resolvi pintar. Pensei comigo: Se o Joarez Machado era pintor e ficou conhecido como o mímico do Fantástico então eu vou ser o mímico que vai ser conhecido como pintor rs... e assim iniciei meu trabalho de pintura, e consegui me inserir nesse mundo das artes visuais. O Cinema foi conseqüência disso e, misteriosamente, a partir de 2002, timidamente fui sendo chamado pra fazer mímica e agora, revezo minhas atividades artísticas porque não dá pra viver só de uma atividade. Eu ganho um pouquinho com cada coisa que faço e no final acabo tendo dinheiro pra pagar as contas no final do mês e financiar precariamente as minhas pesquisas no projeto Cinema Possível!
Mas eu acho que a minha verdadeira arte é a poesia. No fundo, sou um poeta no sentido oriental do termo, cultivo a arte sem nenhuma opulência, faço com total desprendimento e isso me confere uma certa leveza pra lidar com a realidade. Eu sinto, inclusive, que a poesia será a religião do futuro!

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7. Jiddu Saldanha por Jiddu Saldanha
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Um artista que precisa de muitas linguagens pra se expressar, mesmo não dominando bem nenhuma delas, sente que tem a vida cheia de possibilidades pra criar e ajudar, contribuir um pouquinho para que o mundo respire aliviado com a possibilidade de que, se o sonho acabou, ainda tem pão de queijo! Kkkkkkkkkkk


links para a Arte de Jiddu Saldanha

cinema possível:
Pronominal:

http://br.youtube.com/watch?v=v5UEGuJ7db4



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os haicais (prefácios) são todos de Jiddu Saldanha.