Saturday, August 30, 2008

Os meninos e eu






Os meninos empinavam pipas;
eu, pássaros.
.
Os meninos folheavam revistas
de garotas nuas;
eu, assistia ao namoro dos sapos.
..
Os meninos iam ao cine;
eu, atravessava a pé
o igarapé.
.
Os meninos desenhavam piratas
tesouros, navios;
eu, a escafandrista solitária.
.
Agora
solidão nos devora
em negros prédios
meio à elite ignara
.
Os meninos vestem
negro/desencanto
seguem com cifras
nas pupilas vítreas

Tão tristes os meninos
reclusos, bebendo
o índice Dow Jones
com café.
.
Trocando de amantes
a cada inverno.
A alma pesada os faz andar
em cadência de elefante.
.
Eu,
desenho gravuras
em tons rosa chá
teço minhas roupas
danço minhas músicas
escrevo meus poemas.
.
Não atravesso
o vidro frio do templo
moderno
- shopping center –
.
Não atravesso
a porta de cedro
do antigo templo
.
(enquanto o Vaticano
não doar aos pobres
todo o ouro seu)
.
Vivo nas esferas
desço ao chão
para pisar águas
dos igarapés.
.
Adormeço
no berço-arraia
que me embalazul
no “mar/
belo mar selvagem…”

Bárbara Lia


Canção da procura
.
.
Esta é a manhã que procuro,
repleta de coisas inúteis e belas,
feitas de objetos infantis
somente existentes em aquarelas.
Esta é a manhã que procuro
pintada de nuvens e camélias.
.
Sob a sombra desta manhã
dorme o pássaro extinto.
Canteiros de dálias rebeldes
com forte cheiro de absinto.
Trilhos abandonados,
caminhos de andarilhos.
.
Uma manhã quase estranha:
vestida de arvoredos,
dormindo num regato perdido
ao som de realejos.
Feita dos fios de sol,
mas também de bocejos..
.
Esta é a manhã que procuro,
presa nas ramagens do arabesco.
Escondida na candura da infância
onde dorme um bodoque preto.
Bela feito o nácar na concha
e não como o Narciso no espelho.
.
É nesta manhã que procuro
uma serenata para Estela,
o bailar do beija-flor bojudo,
a borboleta que se liberta,
rebanho de violoncelos turcos.
Coisas assim, inúteis e belas.
Marcos Ferreira

.
..
o inseto
.
.
o soneto
fechou-se à
verborréia,
fez careta
.
ao discurso.
tem agora
o hemistíquio
dos insetos
.
dissecados.
e entreabriu-se
aos desvãos,
.
por mais mínimos,
como quem
se abre ao mar.
.
2
o inseto
de palarva e tinta,
multiplicado
por suas asas,
.
despega da
margem esquerda.
magro e comprido,
no afã de ser

fero e revivo,
deixará a página
(conta se morre
.
pouco depois?)
pelas paredes
sem transcendência.
.
3
antes de pousar
de uma vez por todas,
o sonetinseto
revela-se inteiro
.
à sanha suctória
nas dermes da vida:
imos, méis e conas.
morto, vai feder
.
quase impercebido:
micromiliabismos.
seu registro no
.
papel será como
a abelha esmagada
correndo no vidro.
.
4
ou a fribólise?
carne do susto,
e não do sono,
mil folhações.
.
duma crisálida
renascerá:
sangue de tinta,
asas-sulfite,
.
a carnadura
de gosma e âmbar
para queimar
.
no ar e nas veias,
como um veneno,
como um verão.
Rodrigo Madeira
.
.
Os meninos e eu é o título da poesia minha que recebeu menção honrosa no 17° Concurso Nacional de Poesias Helena Kolody. Os meninos e eu, é também o título deste post, pela minha alegria de estar partilhando esta antologia com os meninos Marcos Ferreira e Rodrigo Madeira, amigos especiais que escrevem demais. -