Sunday, September 07, 2008

O lobo eterno

Um homem que dedica um livro de poesias "aos que não enlouqueceram nem lucraram com a loucura alheia" aprendeu que é difícil não enlouquecer neste mundo. Neste mundo onde uns lucram com a loucura, dor e agonia do outro, o Acrobata pede desculpas e cai na paz e em algum campo de papoulas aonde todos os seus sonhos vão se tornar reais em cada flor, em cada flor.
Li em muitas matérias de escritores e jornalista uma dúvida sobre - qual seria o grande romance brasileiro do século XX - falavam assim como falam quem será o próximo Guimarães Rosa ou a próxima Clarice Lispector. Como em Curitiba vivem sondando o próximo Leminski... Uma noite em um café o Rodrigo Madeira falou, enquanto fumava um cigarro e uma garoa fina caia na praça Santos Andrade: Estão sempre querendo achar o melhor, não é? Eu sorri e nos calamos em um silêncio que dizia mais que a nossa vontade de que a poesia fosse sempre maior que tudo. Rodrigo Madeira e eu não estamos com os olhos nesta disputa provinciana, estamos buscando contato com os verdadeiros monstros da poesia. Rodrigo me confessou que em uma noite, após ter conseguido o telefone do Ferreira Gullar, ligou para o poeta; eu, escrevi ao Fausto Wolff há uns seis anos e me debulhei como fã ardorosa, e ele teve a ousadia de publicar meu poema Labirinto em seu blog antigo. Para quebrar este rito de não me preocupar com o pódium, devo dizer, como uma homenagem verdadeira: Fausto Wolff escreveu o maior romance brasileiro do século passado. Entre tantas opiniões, nada vai abalar a minha opinião. À mão esquerda é um livro possante, e só um escritor potente em todos os sentidos pode escrever sua autobiografia e torná-la uma obra de arte sem rasura, Joaquim Nabuco fez isto com Minha Formação. Mas, vivemos em um país onde seus grandes escritores são esquecidos, e isto de forma mais violenta se ele tem a coragem que Fausto Wolff tinha. Quando menina eu via aquele rosto jovem e bonito, no tempo que ele foi apresentador de TV, me apaixonei pela imagem, e a vi depois, lendo - À mão esquerda. Minha paixão platônica dos quinze anos, voltando nas páginas de um livro escrito com uma verdade e uma poesia que arrancava lágrimas, risos e todo o campo da alma e cada milímetro palmilhado dentro de mim, exultava por aquele menino precoce, que se torna jornalista aos 14. Um homem que ama e seduz todas as mulheres que encontra. Um lobo que encontra o amor na meia idade e toma posse dela, pois é preciso viver o amor em calmaria. Um revolucionário ardente, inteligente, instigante, mas, sofrendo às raias da loucura, por entender que é preciso ser muito forte para não enlouquecer neste mundo.
De poeta para poeta, toda a imensa saudade. Fausto Wolff, um lobo na eternidade.

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IDADE
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Às vezes,
Os deuses que fodem
Na névoa do teu cérebro
Se vingam.
Outras não.
Por via dessas dúvidas
Etílicas
É preciso tomar cuidado.
Livra-te, portanto,

Do canalha, idiota, torturador
Que, sorridente,
Enche o teu saco
Na mesa ao lado.
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O INVASOR
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Dizem que não trabalho as vírgulas.
Acusam-me de ignorar as hipérboles.
Riem dos pontos da minha exclamação.
O único Alexandrino que conheço
Era almirante em Botafogo.
Querem um poeta que ponha a rima rica
No fogo.
Não sei ser tão complicado.
Minhas metáforas entendem
Seu próprio significado.
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...
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LIVRO
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Nem sei como me ajeitei
Sem me machucar muito
Na máquina de moer fé.
Acho que fui protegido
Por um livro
Achado no lixo
Chamado Robinson Crusoé.
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...
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LIBERDADE
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Fure os tímpanos
Corte a língua,
Vaze os olhos com um garfo,
Ponha ácido nas narinas,
Corte as mãos.
Dance na escuridão da cela
Do tamanho do seu caixão.
Então sim, possibilidade.
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FAUSTO WOLFF - O pacto de Wolffenbüttel e a recriação do homem (Bertrand Brasil, 2001) este livro tem na contra-capa uma carta do Manoel de Barros...
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Carta de Manoel de Barros sobre o primeiro livro de poesia - Cem poemas de amor e uma Canção despreocupada.
Campo Grande 5/11/00
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Caro poeta Fausto Wolff,
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Você não tinha nada que pedir desculpas por sua poesia que é poesia que é poesia. O que a gente sente é que você pegou a tarefa de livrar o mundo de suas chagas. Trabalhou e trabalha ainda através de seu verbo sarcástico para atacar as hipocrisias, etc. Por tudo isso o poeta foi abafado. Estava lendo os seus poemas com a Stella e ela comentou: como que um homem tão enorme, tão comunista e tão alcoólatra (como está confessando) pode ter uma alminha de borboleta e de passarinho! Eu respondi: é porque o Fausto brigador abafou o poeta. E porque a liberdade do poeta é terrível carcerária. Só agora deixou escapar por uma fresta a sua alminha de ternuras. Nossos parabéns e nossos beijos.
Stella e Neguinho.

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Última crônica do Fausto Wolff:

http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/09/05/e050910341.html